O Feitiço virou contra o Feiticeiro: compulsão.

capa_10_1271869590_lha_tropical

Eu não negaria que estamos em algum nível sempre tentando encontrar prazer (por mais estranho que ele possa parecer) ou encontrando meios de evitar a dor ( mesmo que seja a substituindo por algum outro tipo de dor).

Chocolate, eventos, conversas, risadas, parcerias, substâncias, estudos, música, jogo, sono… Vou chama-los de feitiços (necessários e muito bem quistos na existência) usados para não nos afogarmos na dor crua, no tédio – nas situações mais sofisticadas também são boias para o mar da ausência de sentidos.

O interessante dessa dinâmica é que as vezes este feitiço se rebela (muitas vezes silenciosamente) e ele vira contra o feiticeiro.

Seria quando certo feitiço é usado mais do que o cabível para mente/corpo (medida esta totalmente pessoal e contextual)? Eu diria que não somos ilimitados quanto à nossas capacidades mentais e físicas e, se usamos um recurso específico como se fossemos ilimitados , ele tenderá a tomar o espaço dos outros, engolirá risonhamente outros recursos, outras possibilidades…quem sabe até chegar ao ponto de não reconheceremos qualquer outra situação que não se relacione ao “feitiço salvador da pátria”? Feiticeiro de um feitiço só?

O Filme Trainspotting (1996) inicia contando ao público o quão maravilhosa é a sensação do uso da heroína: 1.000 vezes melhor que qualquer orgasmo. Bingo! Perfeito!

Curioso é que o grupo do filme não consegue mais fazer nenhuma atividade que não “usar heroína” e passam a “não entender” ou compartilhar do sentido de qualquer outra atividade, ou, passam a não compreender “sentidos” que não do prazer in natura? Estão isolados na ilha do prazer (enquanto existir heroína por perto).

De repente algo se rompe nesta ilha, o bebê da moça do grupo morre por “esquecimento” e ela entra em contato com uma dor que a faz chorar desesperadamente; os amigos se juntam ao redor dela, mas já não conhecem palavras de acolhimento. Ainda sabem conversar? Já não compreendem as ligações dolorosas que a moça expele pela boca, a dor ameaça se aproximar… Mais uma dose por favor.

Quem quer habitar a ilha de um prazer? Quem quer não sentir mais dor? O custo é a Ilha.

“Mas é preciso ter força
É preciso ter raça
É preciso ter gana sempre
Quem traz no corpo a marca
Maria, Maria
Mistura a dor e a alegria”

IMG_20140414_135449
Manoela Ferreira é psicóloga clínica em Ribeirão Preto, formada pela FFCLRP-USP e organizadora do “Entretantos” (que será na próxima quarta-feira, dia 29/05, às 19 horas).

As distâncias nas relações: o que não é o que parece

gone-girl

(Reflexões à partir do filme Garota Exemplar)

O enredo inicial é aparentemente simples: temos um aparente “bom encontro” (aqui vou citar o texto dos colegas do Razão Inadequada https://arazaoinadequada.wordpress.com/2013/10/31/espinosa-e-o-segundo-genero-do-conhecimento/), e o casal vai se enriquecendo, compondo a vida do outro conforme conversam, conforme se conhecem.
Pausa.
Eu disse compor: mas que seria compor no momento em que escrevo? Pensei em composição musical, quando vamos adicionando elementos outros a um primeiro de modo a tornar a melodia mais interessante e a harmonia mais complexa, aliás, se a música não vai se compondo ela para – preciso de um novo elemento seguido do outro inevitavelmente, para que a nota “atual” não seja uma eterna repetição de si mesma, o que a faria deixar de ser música?
Voltando.
A Garota Exemplar fornece alguns exemplos de “ser” : profissional, amante, filha… Mulher… Pausa: Exemplo é algo a ser seguido? Algo bom? È método de aprendizagem?
Tudo muito bonito e Exemplar. Mas, o clima do filme muda e o Exemplar Casal está afastado nas próximas cenas. Os “exemplos” agora parecem mais uma máscara da garota, que mais calcula o próprio comportamento do que vive e, distante de si mesma, inevitavelmente estaria distante do marido…? Sempre foi assim? Me enganou de antemão?
Pausa.
Mas que parceiro é este que não encontra sua amada e mesmo assim aparentemente (exemplarmente?) permanece e compactua com essa relação ? Ele também estaria distante de si? Da mulher? Apenas de forma menos tétrica?
Voltando.
Quanto de distância uma relação comporta pra que ainda seja relação (ato de relar, de encostar)? Para que ainda possa compor novas melodias? Mas, quanto de distância uma relação necessita (!!) também para sobreviver?? Afinal pra que algo encoste, preciso de separação; o que está permanentemente grudado se torna 1 e não há mais “encostações” de uma coisa na outra.
Aqui sugiro uma reflexão.
A garota Exemplar está distante de si e do marido ou está tão próxima que não mais existe? Que já se misturou? Ela julga saber o que o marido (ou um homem qualquer) quer, e age de acordo com isso: são os comportamentos “exemplares” – acredito que neste momento ela é o marido.
Por fim, o mote desta conversa me parece uma importante reflexão, inclusive entre analistas e analisandos: Qual a distância para poder haver pensamento que se vincule ao outro, mas que não seja o outro (anule sua exisência)?!
Questionemos e não, não sejamos por demais Exemplares! Para podermos ser um, mas dois quando em relação.

IMG_20140414_135449
Manoela Ferreira é psicóloga clínica em Ribeirão Preto, formada pela FFCLRP-USP e organizadora do “Entretantos”.

Concursos de Miss, “rivalidade feminina” e a fobia de mulher bonita

Elle_Driver___Wallpaper_by_demonika
– É assim que a Josefina vê a Genoveva.

Estava assistindo à chamada do concurso de Miss Brasil que passava na tevê de um lugar onde eu almoçava. Comentei com a colega de trabalho que me fazia companhia: feministas queimam sutiã, homens protestam dizendo que “tudo agora é machismo porque tá na moda”, e o concurso de Miss Brasil continua lá. Retomarei este assunto mais adiante…
Certo dia, há muito tempo, colocaram uma modelo de propaganda de cerveja para ficar parada “enfeitando” uma festa promovida pela mesma marca. Não havia ido à festa, mas amigas me mostraram a foto da mulher (sozinha, ninguém se atreveu a tirar foto do lado dela) dizendo, de maneira bem engraçada, quão incômoda era sua presença naquele lugar. Por mais maquiadas que estivessem, pareciam um palhaço diante da moça. E o assunto na mesa dos homens também foi, durante horas, a tal mulher (e não a mocinha que eles haviam beijado no mesmo dia). Ao lado, cabisbaixa, a antiga “mais bonita da turma”, relegada ao esquecimento e à obsolescência (algo como a Miss do ano anterior).
Para você que não foi empático e quer entender melhor a sensação, imagine uma mulher (a chamarei “Josefina”), feia, bonita desarrumada ou somente “não tão bonita assim”, encontra uma moça especialmente bonita, cintilante e arrumada (a chamarei “Genoveva”). Automaticamente, a cena que se passa na cabeça da Josefina é a seguinte: a Genoveva logo se transforma em um dragão cuspidor de fogo, que vai devorar o mocinho que a Josefina ficou planejando encontrar durante toda a semana. A maquiagem da Josefina, cuidadosamente planejada, rapidamente escorre e se transforma em rugas peludas, concomitantemente ao crescimento de seu nariz. Nascem bigodes também. O que a Josefina faz?

a) Diz que a Genoveva tem bigodes também (e a Josefina nem sequer os tem de verdade). Se alivia com isso.
b) Chega à conclusão, igualmente aliviante, que a Genoveva é chata, burra ou metida. “Deu pra perceber do jeito que ela piscou o olho!”
c) Faz um comentário para a amiga sobre a unha encravada da Genoveva, que evidencia o quanto ela é horrorosa. A amiga, também assustada, concorda plenamente.
d) Chora e vai pra casa tomar sorvete.
e) Beija a Genoveva, afinal ela é uma gata mesmo.

Acontece que mulher bonita causa medo a outras mulheres. Estamos constantemente sendo comparadas e nos comparando com as outras, e isto acontece de maneiras explícitas ou muito sutis.
Algumas maneiras sutis são quando um homem diz em voz alta que “fulana é a mais bonita da faculdade” ou quando uma mulher comenta o vídeo da Bunda da Paolla Oliveira (sim, em maiúscula, pois é nome próprio)dizendo que perdeu a vontade de comer pão depois de assisti-lo.
Uma maneira explícita é elencar as mulheres mais bonitas progressivamente excluindo as menos bonitas até que uma seja eleita (e todas as outras bilhões de mulheres do mundo, classificadas abaixo dela). É como uma versão profissional da listinha Top de Meninas do colegial e todos refletem um mesmo hábito de objetificar mulheres e classificá-las de acordo com o grau de desejo que são capazes de provocar. A pergunta sobre a paz mundial é só pra disfarçar: nunca vi nenhuma delas emitir nenhuma opinião polêmica ou demasiadamente inteligente, não porque não possam ser capazes, mas porque isso não seria desejável.

Obs.: Sim, há outras alternativas além das cinco listadas acima para lidar com a beleza de outra mulher, embora a última, dependendo do caso, possa ser uma alternativa viável.

IMG-20140419-WA0000Daniela Torres é mestre em psicologia pela FFCLRP-USP, psicóloga clínica e da prefeitura de Ribeirão Preto (NASF).

Sobre psicanálise e o medo da morte

164874036328574802_LcOEl7Ps_c

“E como não vivo
além do que vivo
não é
tempo relativo:
dura em si mesmo
eterno (e transitivo)”

Ferreira Gullar- Lição de um gato siamês

É comum surgirem em análise uma vasta diversidade de sintomas relacionados ao medo de morrer: crises de pânico e a sensação de morte iminente, depressão e a vontade de sucumbir a ela, esquizofrenia e as vozes de comando para matar, ou mesmo o bom e velho medo de morrer.
Ocorre que morrer não é coisa de gente viva. Mesmo espiritualistas crêem haver fatos relacionados ao que acontece depois que viramos adubo de que não podemos, por hora, tomar conhecimento. E vamos combinar: independente da sua religião (ou da ausência de uma), o fato é que, caso você tenha sido uma pessoa minimamente ética durante sua permanência por aqui, não há muito o que temer: ou você desaparece (e, portanto, não há como sofrer), ou continua vivendo do outro lado e pode pedir pessoalmente um autógrafo para o Freddie Mercury.
Mas acontece que, uma vez que não temos experiência de morrer, aquilo que se teme não é a morte concreta, mas aquilo que morrer representa na vida de cada um. Não por acaso, nunca morremos em um sonho: não há como simbolizar a morte, para que ela se transforme em algo sonhável. Mesmo assim sonhamos com sua iminência.
Certo dia, um paciente me narrou um sonho de quase morte. Os sonhos de quase morte são materiais muito comuns no divã e arriscaria dizer que praticamente qualquer ser humano já teve um desses. Mas, embora seja um tipo de sonho comum e, portanto, revele pouco sobre sujeitos específicos, cada um morre de um jeito no próprio sonho, e aí está a riqueza. Alguns quase morrem atacados por monstros, outros quase morrem caindo (e acordam antes de tocar o chão), outros quase são soterrados, por um teto que começa a ranger, outros começam a ter um ataque cardíaco. Mas, de qualquer forma, é também comum que haja uma certa sensação de segurança onipotente nesses sonhos, como se fossem “imorríveis”.
No caso do paciente a quem me refiro, não vem ao caso exatamente como ele estava prestes a morrer, mas sim o fato de que tinha certeza de que morreria, e não apenas um certo medo. No sonho, ele estava face a face com a morte e absolutamente certo dela. Isso muda bastante as coisas e aproxima o sonho dele da situação humana por excelência.
Sentada na cadeira atrás do divã, fui tomada por uma angústia momentânea, como se eu mesma me desse conta da finitude humana. Logo seguida, veio a mim um lampejo que mudou o curso da sessão que estava sendo conduzida.
Me dei conta de que o paciente estava prestes a passar por um rito de passagem e disse a ele que estava prestes a deixar de ser algo que havia sido durante a vida toda. E não havia, àquela altura, como recuar.
Não direi exatamente do que se tratava. Primeiro porque tenho empecilhos éticos, pois isso poderia identificá-lo. Segundo, porque não importa: se o rito era um casamento, significa deixar de ser solteiro; se era ter um filho, significa mudar de posição de filho para pai; se era uma formatura, significa deixar de ser estudante. Qualquer que fosse o rito, tratava-se de deixar de ser uma coisa e tornar-se outra completamente diferente. Mais do que isso, significava deixar de ser algo que sempre havia sido, para ser outra coisa, totalmente desconhecida e que ainda não era parte de si: era tornar-se algo até então completamente estranho. No caso do paciente, o fato tinha data e hora marcadas.
Esta relação da angústia de morte do paciente com um fato concreto de sua vida mostra como o que tememos não é da conta da morte em si e da possibilidade de não existirmos mais. É quase como nos angustiarmos com o fato de um dia não termos existido (e, sim, também fazemos isso). Chegar e partir, afinal, são mesmo só dois lados da mesma viagem…
Morrer faz parte da vida. Não me refiro apenas a ter que presenciar a morte de outros, queridos ou não, distantes ou próximos de nós. Me refiro à nossa própria morte: só vivemos se pudermos morrer. Viver é poder reinaugurar a si mesmo, de uma maneira completamente desconhecida. É quando somos capazes de deixar repousar as mãos de alguém que fomos e que não seremos mais, que pode surgir o choro doloroso do nascimento de alguém que passaremos a ser.
É a esse movimento, a meu ver, que serve uma análise.

IMG-20140419-WA0000Daniela Torres é mestre em psicologia pela FFCLRP-USP, psicóloga clínica e da prefeitura de Ribeirão Preto (NASF).

Receita para não morrer afogado nestas eleições.

IMG-20141022-WA0002
Não teve jeito, minha cabeça está totalmente mergulhada nas eleições. Na verdade, devo especificar que não se trata da eleição propriamente dita, mas da propaganda, do efeito de marketing que nos guia e das crendices que são inauguradas. Inauguradas num museu de grandes novidades. Sabe criança quando toma “caldo”? É mais ou menos assim que tenho me sentido neste mergulho, respirando água.
No palanque da minha timeline tem gente que defende o gato Fidélix, outros, dizem que se ele passar na sua frente, dá azar. Acho que alguém aqui pirou. Não é que eu esteja com medo ver mula sem cabeça na minha frente. É que eu to vendo gente montado na mula, fazendo selfie. Estou convencido, a mula existe. Você deve se perguntar por que a minha surpresa. Pois é justamente isso: estou surpreso de que isso tenha um valor isolado, a crendice reina soberana. Vou votar na crendice, porque ela está à frente das estatísticas, contando com a margem da margem da margem de erro do ibope. Segundo essa margem, eu sou um marginal. Ainda, bem, tem hora que não quero fazer parte de nada disso, mas não tem jeito, a gente sempre está em um discurso. A propaganda eleitoral protagonizada pelos eleitores funciona mais ou menos como um oráculo, você sempre se encaixa em alguma coisa, que seja num rancor narcísico.
Entender que as pessoas reproduzem discursos que estão aí desde a época do guaraná com rolha me dá a leve sensação que só outra propaganda será capaz de mudar a cabeça das pessoas. Isso eu aprendi na umbanda, tem exu que só exu bate. Já que é pra ser reprodutor, que sejam discursos que prejudiquem o mínimo possível a vida das pessoas. Ocorreu-me escrever “atrapalhem” ao invés de “prejudiquem”. Mas, não sei, não ter dinheiro no bolso me atrapalha, mas tomar surra porque nasci com o polegar azul me prejudica. Jóia? Não, espera, o que você vai dizer pro seus filhos sobre pessoas que fazem “jóia” azul…? Melhor enfiar meu polegar na rima.
Fiz um top five dos absurdos que ouvi de gente que se leva a sério. E não vou colocar pra não soltar um traque nos escombros da terceira guerra.
Não vou votar em você, vou votar na crendice, como disse. Mas, candidato, perto de alguns de seus eleitores, quer ser meu BFF? Sério, bora dar um tiro junto. Já que é pra ficar doido, pelo menos a bad trip passa. Sério, sério mesmo, a coisa ta séria. Vamos ao receituário:
1º Religião não nada a ver com política. E eu acabei de te contar a maior mentira, baseado na simples observação da vida prática, que você escutou esse ano. E olha que esse ano rolou mentira. Muitos valores que guiam estes votos são eminentemente religiosos. Os políticos sacaram isso já, não?
2º A ditadura militar, pelos relatos de gente que eu confio e não teria porque estarem fazendo tipo pra mim, foi um buraco negro. Sugou educação, sugou dinheiro, sugou sangue. Não peça que isso volte.
3º Não chame seu colega que vota diferente de imbecil. Cabem vocês dois no mundo.
4º Se você acha que a formação universitária é uma enxurrada esquerdista, você deve estar bem longe da faculdade, e há bastante tempo.
5º e último. Se você também está se sentindo afogado, saiba que não está sozinho. Bom domingo.

fotinha lucas
Lucas Vinco é psicólogo em Ribeirão Preto, psicanalista, mestre em Saúde Pública pela Escola de Enfermagem da USP, professor de psicologia e gestão de pessoas na REGES – RP, psicólogo na Saúde Mental e nos Recursos Humanos na prefeitura de Sertãozinho.

Os mau humorados que me perdoem, mas humor é fundamental.

charge455

O riso do humor é diferente da risada de deboche, de “sem graceza´´, ou daquela que tem cara de primeira passagem do trem para as terras “dos sem dor´´. Rimos da surpresa, da desmedida, não para destruir, mas para ultrapassar elegantemente uma ordem estabelecida.

Para rir precisamos ter ativo mais de um “nível mental´´ (ou dimensão, mais chique).Uma piada que veicule uma crítica à fome no mundo só será entendida ou apreciada de for processada em mais de uma dimensão mental, do contrário, será simples retrato de uma catástrofe social, afinal, ninguém deveria mesmo achar graça de alguém passando fome.

Crítica bem humorada “entra direto´´, não necessita do trabalho das intelectualizações para aqueles que possuem os recursos para apreende-la, ela não tenta comunicar , simplesmente fisga pela boca.

Na escola me contaram que na Idade Média era proibido rir, proibição muito bem arquitetada; um Deus único, sério e inquestionável – Posso ouvir daqui as risadas do Olimpo com seus Deuses diversos, tortos e…cheios de humores.

Nietzsche diz que o Futuro está reservado ao riso ( Gaia Ciência).Ri quem percebe mais de uma realidade atuando ao mesmo tempo e, com mais de uma opção já podem ocorrer escolhas – mudar já não é mais morrer.

Para o homem, um pobre “gauche na vida´´ (indico! http://sintomalivre.com.br/2014/06/16/como-me-afoguei-em-um-mar-de-rosas/), rir é uma urgência!

IMG_20140414_135449
Manoela Ferreira é Psicóloga clínica em Ribeirão Preto, formada pela FFCLRP-USP, tem muitos dias de mau humor e organiza o “Entretantos”.

Preciso me encontrar.

preciso-me-encontrar

A quantidade de ideais que se amontoa é imensa. Ideal político, religioso, econômico, teórico e sexual. É pouco concluir que são limitantes, furados: “ahá! Papai Noel não existe!”.
Engraçado é como a gente combate os próprios ideais: concluindo que era um delírio de grandeza ou de diminuição do outro: “cê tá viajando, por fora, tô noutra”. É um jeito de dizer: “eu superei isso e, portanto, superei você”. Há o esforço para furar uma certeza atribuída ao candidato, pastor, contador, professor, comedor… Parte dessa certeza, quem fura é que colocou lá, também demasiado pouco para concluir, mas não tão óbvio.
Fazer cair sua igreja pessoal, sua bolsa de valores particular, é doloroso, o jeito de doer menos é transformar em demanda o que é desejo, como querer sair de casa “mas meus pais não deixam”. Até que, caso você tenha azar ou se esforce bastante, eles te expulsam, e a profecia se realiza. E é esse o percurso mesmo, colocar o ideal lá para quebrar ou ultrapassar, difícil ser diferente. Neste caso, o sair de casa não é jogar contra os pais, pelo contrário, é jogar a favor, é obedecer, é permanecer até o último momento, até a ultima consequência. Às vezes sequer há algo para jogar contra. Mas, se não dá para ir contra por bem, vai por mal: inflar até explodir.
Por isso ando mais condescendente (no sentido de quem acha que está compreendendo melhor) com o Sado-Masoquismo, sério. Quem acha que a “sua” liberdade é um modelo e uma obrigação para todo mundo vai achar isso ridículo. O sadô-mazoca responde ao tédio, inflando o que não quer mais para explodir. Elevar a própria insatisfação ao estatuto de zênite. A perspectiva de insatisfação aqui está além da fórmula: “não há plenitude”. É insatisfação no sentido de forjar o tédio, inventar uma mesmice, comer até enjoar e nunca mais querer saber de comer. É a ilusão de se bastar, de se fazer por conta… Mas acaba que é só um faz-de-conta, uma historinha, um ideal. Não deixa de ser um jeito de tentar se libertar, mas que não funciona direito, porque não tem jeito de zerar o desejo. O máximo que da para fazer é adiar.
É mais fácil do que se imagina entrar em um ciclo de sofrimento, ideal, sofrimento de novo, outro ideal. Enche o balão, fura o balão, enche outro balão, estoura de novo. No começo, muita coisa ia mal, depois, como uma benção, caíram alguns ideais e muita coisa melhorou (tragédia para os neuróticos), até que passou um pensamento invasor: “tudo que eu queria agora era uma doença”. Achou estranho? Mas acontece. “Eu quero andar por aí, me foder um pouco na vida”. Ainda bem que você pediu para não ser deixado.

… “preciso andar, vou por aí a procurar, rir pra não chorar”…

fotinha lucas
Lucas Vinco é psicólogo em Ribeirão Preto, psicanalista, mestre em Saúde Pública pela Escola de Enfermagem da USP, professor de psicologia e gestão de pessoas na REGES – RP, psicólogo na Saúde Mental e nos Recursos Humanos na prefeitura de Sertãozinho.

Em defesa da lógica binária

sony-mvm-e250-sub-pixels-oled

Há algum tempo ando engasgada com o que julgo um grande equívoco dos psicólogos em geral, tanto dos psicanalistas quanto dos críticos da psicanálise: a maneira de interpretar o conceito de lógica binária.
Curioso pensar que meus ex-alunos do curso técnico de informática me entenderiam melhor neste momento, mesmo estudando algo aparentemente tão distante do conhecimento psi. Mas vamos ao dilema: alguns conceitos da psicanálise, mais precisamente a lacaniana, baseiam-se em uma realidade estruturada em pares de opostos, a chamada lógica binária.
Pense no funcionamento do CD (pontinhos onde o laser hora reflete, hora não) ou no aparelho televisor (o mais fácil, preto e branco, que hora as microluzes se acendem, hora se apagam). O mesmo vale para nossa vida: algumas coisas ou são, ou não são. Não tem meio termo.
Isso não quer dizer que você tenha que, necessariamente, ser ou petralha, ou tucano, militante negro do Ilê Aiyê ou membro da Ku Klux Klan, Bolsonaro ou Isabelita dos Patins. Pode ser também, se quiser. Mas não é isso que, a meu ver, deveríamos chamar de lógica binária.
Se lógica binária fosse isso, você não veria uma imagem no seu televisor ou uma música no seu CD. No caso do televisor, ou ele estaria apagado, ou aceso e a tela, ou completamente branca, ou preta. O CD ressoaria uma única nota num único volume, ou não tocaria nada. Mas o que acontece é que, de zero e um em zero e um, a televisão mostra imagens complexas e coloridas e um CD pode reproduzir a Nona de Beethoven. Para o ser humano, entendo que não deveria ser diferente.
A questão, a meu ver, é mais radical: algumas coisas na vida humana são sim ou não, e só. Por exemplo (o maior exemplo): a vida e a morte. Tem meio morto? Tem meio vivo? Um instante, uma tampinha de garrafa no lugar errado, um passo a mais para a direita podem dividir duas coisas profundamente diferentes. E não tem meio termo, nem volta no tempo, nem negociação.
Um dos assuntos mais delicados quando se fala em lógica binária é gênero (e isso vale outro(s) texto(s)). Não é porque você nasceu com “pepeca” que precisa usar rosa, brincar de Barbie, lavar louça, ser sensível, se atrair por homens e nem mesmo precisa se definir mulher ou usar um nome feminino. Beauvoir nos ajuda nesse ponto: Não se nasce mulher, torna-se. Mas o fato é que você nasceu com o que nasceu e, seja lá como for, vai ter que lidar com isso, partir deste fato para construir sua própria realidade. E o que determina isso é uma aleatoriedade: um espermatozoide microscópico, muitas vezes no lugar e na hora errada, fruto de uma rapidinha de final de balada e que, por um jogar de dados, é X ou Y. Tomara que tenha caído pra você o lado que corresponde à maneira como você vai enxergar a si mesmo e oposta àquela com a qual você vai querer se relacionar sexualmente. Senão, amigo, vai ter muita coisa pra enfrentar depois que sair da barriga da mamãe…
Aí de um lado vem o colega que fala que a psicanálise é sexista porque para ela o mundo é estruturado em uma lógica binária. Eu digo, “não é bem por aí, é que…” e antes de eu completar meu raciocínio, vem um colega psicanalista e interpreta o transgênero que não acha importante se definir como homem ou mulher (vide João Neri, Laerte, ou aquela cantora com barba que eu não lembro o nome) como alguém que não teve acesso à Lei simbólica ou que a renega (em outras palavras, que não lida bem com as “regras do jogo”). E não adianta dizer que é só “mais uma maneira” (em psicanalês, uma questão de estrutura) porque tem muita coisa por baixo dessa afirmação.
Neste impasse, fico com vontade de virar 0 em vez de 1, se é que vocês me entendem. Pensar o mundo como um grande tabuleiro de xadrez é tornar o seu cérebro bem menos complexo do que um televisor de tubo preto em preto e branco.

IMG-20140419-WA0000Daniela Torres é psicóloga em Ribeirão Preto, pesquisadora do Laboratório de Etnopsicologia da FFCLRP-USP.

O que é psicologia para mim?

10643282_707628252636737_1234717836_n

Tão pouco tempo mergulhado neste curso, eu sei, mas talvez finalmente seja hora de expor o que é a psicologia para mim. Dentro dos limitados anos de estudo e prática, começo a finalmente ter uma pequena ideia: a mente é muito mais do que supomos, ela é resultado do nosso passado, reflexo de nosso corpo, produto do ambiente ao nosso redor, enfim, é um objeto absolutamente plural. Somos, estamos, devimos, mudamos, nos reinventamos, sempre de maneira múltipla. Nossa profissão é encontrar as entradas e saídas deste labirinto sem se perder.

A profissão de psicólogo é como a de um chaveiro. Nós lidamos chaves, fazemos fechaduras, destrancamos portas, colocamos trancas. Cuidamos do cadeado no portão, da cópia da fechadura na entrada e do segredo do cofre. O psicólogo é um chaveiro de mentes, de corpos, de vidas. Trocamos fechaduras enferrujadas e emperradas também. Todas estas portas que se abrem e se fecham aliviam sofrimentos e permitem prazeres. Estamos sempre localizados na passagem; os corredores e atalhos são nossas vias de acesso, às vezes empoeirdas, mas às vezes também podem ser passagens luminosas e desimpedidas. Não usamos pé de cabra, somos sutis e habilidosos. Não estragamos uma fechadura, sabemos de sua valiosidade.

O que é psicologia para mim? Se o corpo é um aglomerado de forças que mantém relações de velocidade e repouso entre suas partes então acredito que a psicologia age abrindo e fechando comportas para permitir o fluxo destas forças. Não somos mágicos, não somos médicos, não somos autoridades. Somos simples chaveiros, nosso lugar é com mecânicos e encanadores; permitimos o fluxo da vida passar mais facilmente. A potência da vida se afirma através de nós, ela quer fluir, é nosso trabalho permitir esta passagem. O psicólogo encontra a harmonia para que possamos fluir com mais velocidade, força, segurança.

Só se liga para um chaveiro quando se está preso do lado de dentro ou de fora. Só se procura um chaveiro quando vem o desespero por uma passagem importantíssima estar barrada. Psicólogos são como chaveiros, e sabemos da responsabilidade desta profissão. Certas portas devem ser abertas com cuidado e certos segredos devem ser preservados. Deixamos passar pensamentos, vontades, sonhos, medos; nossas ferramentas permitem fluir, abrir caminhos. Somos pacientes, somos confiáveis, somos perspicazes, sutis, habilidosos; mas no fim das contas, humildemente, apenas trancamos e destrancamos portas para nossos clientes.

c7887d2b1840c88292bf51436deb0078
Rafael Trindade estuda psicologia e filosofia, mas tem interesse em todas as áreas do saber humano. Trocou a guitarra pelo violão, o inglês pelo francês e a ciência pela arte… de resto, não sabe definir-se. Escreve no blog Razão Inadequada http://arazaoinadequada.wordpress.com/

O medo e o peso de papel.

10622302_680303868722454_345399351_n

O medo aparece quando pensamos naquilo que pode acontecer. Quando enfim acontece, o medo sai de cena e lidamos com a coisa; bem ou mal, chorando ou não, desesperados ou com os olhos bem abertos. Aquilo que tanto tememos nos atropela ou diminui de tamanho. Podemos continuar com medo, mas já é medo de outra coisa.

Será que eu vou escapar? O medo está relacionado à falta de controle, consequência de se estar vivo. Nosso momento histórico se caracteriza por grandes investimentos em novos modos de controle da saúde, das relações e do tempo; em um momento de obsessão por controle, percebemos mais nitidamente os limites do mesmo e nos apavoramos.

Mas o importante é nos darmos conta dessa angústia, apenas pelo fato dela ser nossa. Seria bom também deixarmos um pouco de lado a “audácia” do controle (http://sintomalivre.com.br/2014/08/13/temerosos-temerarios/), mas uma coisa de cada vez! Sendo nossa essa angústia, precisamos nos apropriar para que passe a fazer sentido viver nela e, talvez depois, poder viver fora dela. Precisamos encarar, por exemplo, o fato de que o fim da vida como a conhecemos acontece. Tudo muda, mas (ainda bem!) existe um tempo antes disso. O medo traz um contorno interessante, necessário para sabermos lidar com esse tempo, que nos ajuda a organizar os aspectos da vida em certa perspectiva, fazer escolhas, dar ou não valor a algo, lembrar ou esquecer. Nos ajuda a decidir entre família e trabalho, eles ou elas, milk-shake ou coca zero.

O medo de como vamos nos sentir se algo acontecer traz um peso pras coisas. Se não pesarem, elas flutuam e nos escapam; vivemos uma ilusão de infinito, nos desconectamos de nossa condição humana, passamos a vida propondo brindes a ideais megalomaníacos, mas esquecemos de beber o vinho e morremos de sede. Por outro lado, se deixarmos que pesem demais, as incertezas nos esmagam e não conseguimos nos mexer; nada parece compensar a fadiga e só sobrevivemos.

Chega então a hora de decidir, em vários momentos: vivo para além desse medo ou dessa vez é melhor ficar? Não existe certo ou errado. É importante não perdermos nossa paz rasgando os limites do medo à qualquer custo, pois às vezes o cimento ainda está fresco. Mas também não podemos bancar os bobos quando a vida chama.

POR UM ACASO
Poderia ter acontecido.
Teve que acontecer.
Aconteceu antes. Depois. Mais perto. Mais longe.
Aconteceu, mas não com você.
Você foi salvo, pois foi o primeiro.
Você foi salvo, pois foi o último.
Porque estava sozinho. Com outros. Na direita. Na esquerda.
Porque chovia. Por causa da sombra.
Por causa do sol.
Você teve sorte, havia uma floresta.
Você teve sorte, não havia árvores.
Você teve sorte, um trilho, um gancho, uma trave, um freio,
um batente, uma curva, um milímetro, um instante.
Você teve sorte, o camelo passou pelo olho da agulha.
Em conseqüência, porque, no entanto, porém.
O que teria acontecido se uma mão, um pé,
a um passo, por um fio
de uma coincidência.
Então você está aí? A salvo, por enquanto, das tormentas em curso?
Um só buraco na rede e você escapou?
Fiquei mudo de surpresa.
Escuta,
como seu coração dispara em mim.
Wislawa Szymborska

10578840_680304445389063_1020416448_n
Helena Castello é psicóloga clínica em ribeirão preto, especialista em Psicologia Analítica e organiza o Entretantos.