Seríssimas Banalidades

ice-cream

E aí que me bateu uma vontade enorme de sorvete. Que fazer além de ir à sorveteria? A partir daí, verificar-se-ia que o tempo que despendi para decidir se iria ou não foi maior que o tempo de minha pretensa degustação açucarada. Decidido, fui! Mas não foi a qualquer sorveteria… Foi àquela que fica no meio do caminho entre a “de bairro”, perto de casa, (tipo que vende aquela pasta com gosto de raspadinha hidrogenada, sabe?) e Aquela, com A maiúsculo, fantástica, que vale a pena, disseram que você fica até mais saudável e bonito freqüentando o lugar. Mas essa fica perto do centro da cidade, precisa enfrentar trânsito pra chegar, atrasa minha novela, atrasa minha vida. Qual a solução para meu drama? Fui na do meio. Não é tão longe, não é tão ruim, não deixa meu sofá em desamparo por muito tempo. Estacionei, desci, me servi, e minha vontade se decidiu esvair antes da minha boca pensar em aliviar sua vontade (sim, porque a gente pensa com os órgãos, não só com o cérebro).
Isso aconteceu comigo. Não se se já aconteceu com você. Aconteceu comigo, mas também aconteceu com o homem que queria ter um filho e se queixava de nunca conseguir completar o coito, a não ser com mulheres que não conhecia, seguramente as que não seriam mães do primogênito: ainda precisava de segurança financeira, em nome do bem estar no futuro. Aconteceu com a moça que “deu o sangue” pra conseguir ser gerente da concessionária e que, no dia seguinte à sonhada conquista, não foi trabalhar, pedindo afastamento de um mês para tratar de assuntos particulares: precisava de um tempo, em nome de sua saúde. Aconteceu, também, com o rapaz que só fica com mulheres que não deseja e “broxa” com as que ama de fato, chegando ao ponto de casar-se com uma prima a qual não amava, mas que tinha para ele a insígnia da segurança de jamais poder chegar à intensidade (assustadora) de amar alguém tão familiar. Ouvi dizer ainda que aconteceu com a jovem senhora de meia idade que optou pelo culto doentio da liberdade do seu filho varão quando percebeu que para ela não havia mais tempo de resgatar sua liberdade desperdiçada ou então com a garota que decidiu não ingerir nada além de comprimidos para se livrar da “vontade nojenta de comer”.
Estes “causos” são assim, meio hipotéticos, meio do jeito que eu acho que fica bom. Mas o que me interessa, podem reparar: algo com a palavra “segurança”. Isso se repete. A gente repete isso e (às vezes) faz isso com o desejo e com o que parecem ser seus objetos: ou delega, ou estraga, ou transfere, administra, para no meio, não deixa ir à sua potência última, tenta jogar fora, desperdiça, guarda tudo pra não desperdiçar, controla… E controla mais, e adia, e evita, e segura. E justifica, sela a dúvida que faz evitar, seja em nome de causas nobres ou banais. Ou será que nas causas há sempre um “quê” de banal? Sei que foi bem fácil segurar minha vontade, não porque eu estava de dieta ou por que doce dá cáries. Foi quase uma tendência tratar meu sorvete como o objeto mais banal do universo, quando ele estava bem na minha frente. É… O desejo, ali onde ele parece ter encontrado seu fim, deve ser mesmo um perigo.

fotinha lucas
Lucas Vinco é psicólogo em Ribeirão Preto, psicanalista, mestre em Saúde Pública pela Escola de Enfermagem da USP, professor de psicologia e gestão de pessoas na REGES – RP, psicólogo na Saúde Mental e nos Recursos Humanos na prefeitura de Sertãozinho.

3 comentários sobre “Seríssimas Banalidades

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