Texto Afobado

texto molhado

O texto afobado é aquele que não deixa nada passar batido, mesmo que a melhor escolha em algum momento determinado seja justamente deixar passar. Perde o sono, normalmente refazendo na imaginação afobada o percurso, a resposta, a postura e a escrita que deveria ter feito, ou então remoendo uma situação vergonhosa. O texto afobado pode ser tão afobado que quando lembra da vergonha cita um trecho de música e cantarola pra si próprio pra disfarçar. Aliás, é um disfarçado. Tenta disfarçar a fragilidade para o leitor, respondendo à altura ou gritando mais alto. Que quem? Como eu disse, ele não deixa passar batido. Ele se bate. Quer que o leitor desapareça, porque acredita que o mesmo prefere outro texto a ele, tão falho em dizer o que quer. E ele também radicaliza, porque transforma essa suposta preferência num perigo de morte, como se o leitor que prefere outro texto ao invés dele, na realidade, desejasse sua morte. Ele precisa acreditar que é um alvo porque é melhor ser um alvo que não ser nada. Ele é inseguro e acaba achando que sua felicidade, aliás, a felicidade de outros textos em detrimento da sua, é uma questão de merecimento e, claro, injustiça. O texto afobado, fundamentalmente, acredita demais em si próprio. Se acha importante. Prova disso é que ele substitui o apego àquele que em algum momento lhe cometeu injustiça pelo apego à reação. E ele aprende a gostar disso, acaba se apegando porque dá um pouco de alívio quando ele se vinga do outro.
E ele é afobado porque ele quer responder. Aliás, ele precisa. Se ele não responde, não reage, o mundo desmorona e a esperança de felicidade por amor pleno do leitor acaba. Por isso toda reação textual é meio burra, na medida em que é automática por responder a um leitor que não existe fora de seus parágrafos. Melhor, de suas sentenças. O texto afobado, no fundo, se lamenta por suas palavras não funcionarem direito, não convencerem o íntimo dele próprio. Se ele chegou cedo no trabalho, é porque deixou a mãe falando sozinha na hora de sair, se ele deu as devidas satisfações à progenitora, acabou deixando a lição de casa por fazer. Se deu conta da lição, não deu tempo de guardar seus brinquedos e se passou a noite os guardando acordou tarde, perdeu a hora, e agora tem que dar satisfações pro seu chefe. São seus leitores cobrando e a eles vão sobrando furos e insuficiências. Insatisfações dos leitores, mais imaginadas do que reais, mas que dão o sentido de mal funcionamento de suas palavras, transformando-se isso à sentença de morte.
Mundo chato e sem sentido, ele escreve quando chega em casa, menos pela falta de sentido inerente à vida, mais por reação de excesso de sentido, que pretende preencher os furos.
Como é excesso, acaba se justificando demais e estende o assunto ao infinito. Se pudesse, sempre terminaria escrevendo “então fica assim, se não chover faz sol”. Não é que levar alguns assuntos adiante não valha a pena, mas precisa ter tanta vergonha do intervalo?
O texto afobado precisa urgentemente desavergonhar-se.

fotinha lucas
Lucas Vinco é psicólogo em Ribeirão Preto, psicanalista, mestre em Saúde Pública pela Escola de Enfermagem da USP, professor de psicologia e gestão de pessoas na REGES – RP, psicólogo na Saúde Mental e nos Recursos Humanos na prefeitura de Sertãozinho.

2 comentários sobre “Texto Afobado

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