Claustrofobia: aprisionados pela crítica

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Sentir-se mal consigo mesmo é uma queixa comum, de consultórios de psicologia a academias de musculação e terreiros de umbanda. Está por toda parte, nos pensamentos mais íntimos, mesmo daqueles que parecem donos de um grande topete. Afinal, o que faz com que uma pessoa, maior acompanhante de si mesma, vinte e quatro horas por dia, deixe de ser para si uma boa companhia?
Que grande emboscada esta sensação. Quando nos deparamos com uma pessoa desagradável, há sempre, na pior das hipóteses, a possibilidade de bater o telefone na cara do sujeito, ou dar uma desculpa esfarrapada para sair o mais rápido possível do recinto e assim, aliviar-se do peso daquela presença impertinente. Mas o que fazer se a pessoa em questão somos nós mesmos?
Uma gordurinha fora do lugar, que nos aprisiona num corpo que não gostaríamos de habitar. Uma palavra inapropriada, um gesto fora de contexto, uma voz demasiadamente aguda ou um jeito de andar, coisas realmente despezíveis. Ou desprezadas, por nós, tornando impossível nossa presença livre pelos espaços que ocupamos.
Curioso notar que a maioria das pessoas com grandes queixas a respeito de si mesmas costumam ser aquelas que oferecem mais empecilhos à espontaneidade alheia. Pois ao atribuir ao outro, meu semelhante, um lugar simbólico de certa maneira “deteriorado”, logicamente assumo, de maneira suplementar, uma posição de igual desvalia (vide o chamado “esquema L”, de Lacan). Falando em bom português: se, para mim, todos à minha volta são imbecis, devo suspeitar (embora possa não admitir) que não estou entre eles à toa…
Frequentemente, a mocinha da academia, que chora compulsivamente ao se deparar com um (enorme!) pedaço de pele a que ela denomina “barriga”, é a mesma que, no banheiro feminino, se dedica a observar e a afirmar para si o quanto todas aquelas mulheres estão horrorosas. E eu aqui, me sentindo (e eventualmente sendo) uma chata, serei a primeira a nomear uma série de outros chatos.
Aliás, como há chatos nesse mundo! Tem aquele chato palestrante, que faz perguntas afirmativas para mostrar o quanto entende do assunto. O chato que desconhece a função fática da liguagem e, diante de uma pergunta de “tudo bem?”, responde com uma explanação sobre suas angústias pessoais. O chato “amnésia seletiva”, que sempre se esquece de levar a carteira quando vai ao bar com os amigos. E tem aquela moça, de vinte e poucos anos, que porque é psicóloga, pensa que pode escrever alguma coisa que se preste à leitura de alguém.
Melhor preparar um café com torradas para o religioso que vier bater à minha porta no próximo domingo de manhã!

IMG-20140419-WA0000Daniela Torres é psicóloga clínica em Ribeirão Preto, pesquisadora do Laboratório de Etnopsicologia da FFCLRP-USP e vai dormir até tarde nesse domingo, pois mora em condomínio.

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