Sobre a psicanálise enquanto religião

dogmatismo

É de conhecimento geral o fato de que, entre psicólogos, haver grande discordância entre as diversas abordagens da psicologia. À parte o fato de que haver diversas perspectivas a respeito de um mesmo fenômeno pode ser algo bastante fértil para abordá-lo, muitas vezes o que se presencia é uma postura marcadamente deslegitimadora de uma vertente para outra.
Farei as vezes de “advogado do diabo”, colocando no centro da discussão alguns de meus pares, psicanalistas. Sem deixar de considerar que haja represálias opressivas e, muitas vezes, infundadas por parte de adeptos de outras maneiras de exercer a profissão de psicólogo, venho aqui contestar aqueles que utilizam a psicanálise como fonte de um saber absoluto.
Utilizando as ferramentas de que disponho, os conceitos psicanalíticos, creio ser coerente considerar que muitas vezes somos porta-vozes de outro, sem nos darmos conta disso (a famigerada diferença entre o sujeito do enunciado e da enunciação). Ora, em nome de quem falamos ao defender com unhas e dentes, esta particular maneira de compreender as coisas? A que Pai cada um se remete, sem o saber (Karl Marx, Lacan, Skinner, Jesus, ou mesmo um pai concreto, defensor de uma dessas ideias)?
Utilizando a duplicidade de sentido deste “sem o saber” (como o fato de algo fugir à consciência e também pelo fato de o Pai referido ser também desprovido de uma verdade última sobre as coisas) digo que, coerentemente com minha própria abordagem, sobre a real natureza das coisas, nada se pode dizer que as encerre. Sobre o que é o ser humano, o que é o mundo, ou “o que vem primeiro, o ovo ou a galinha”, só podemos esboçar alguma compreensão, sempre rudimentar.
À parte isso, temos de lidar com o fato de que tais tentativas, além de falhas, são profundamente pessoais: não por serem restritas a uma individualidade, mas por serem marcadas por uma aposta, esta sim individual.
Ser psicólogo é (tentar) lidar com o humano. Penso numa metáfora: um mendigo bate à porta de uma casa para pedir uns trocados. Os moradores da casa começam a se interrogar sobre o que seria melhor fazer. Um deles diz que deveriam dar algum dinheiro. O outro, que o melhor é dar-lhe de comer, para evitar que usasse o dinheiro para comprar bebida. Um terceiro diz ainda que seria melhor dar a ele uma garrafa de cachaça, o que, para ele, seria a real intenção do pedido. Os três se envolvem em uma discussão acalorada sobre qual o melhor procedimento até que, depois de algum tempo, o mendigo suspira entediado e, tornado coadjuvante, decide disfarçadamente se retirar e pedir dinheiro ao vizinho.
Há diversas possibilidades de pensar o humano mas, ao final, sobre o que não se pode saber com exatidão, só cabe apostar. Nos posicionamos sempre, mesmo sem percebermos, uma vez que isto é um imperativo. Entretanto, de um jeito ou de outro, não se pode perder de vista que falamos de gente.
Anular a validade da psicanálise como forma de atuação é fato que muito critico em alguns behavioristas e cognitivistas (principalmente quanto ao que se veicula na grande mídia e entre profissionais de saúde). Creio que se trata sobretudo de uma questão ética, de não tolher o outro e assumir-se como proprietário do território (sempre estranho) da existência humana, não uma crítica pessoal ao fato de a conceberem de outra maneira (fato inevitável à existência em sociedade).
Não incorrer no mesmo erro, portanto, é a minha aposta.

IMG-20140419-WA0000Daniela Torres é psicóloga clínica em Ribeirão Preto e pesquisadora do Laboratório de Etnopsicologia da FFCLRP-USP.

6 comentários sobre “Sobre a psicanálise enquanto religião

  1. Minha formação pessoal passou por uma formação religiosa protestante. Um dos pilares do protestantismo é dado pelo aforismo de lutero SOLA SCRIPTURA – afirma que somente as Escrituras, a Biblia, a Palavra bastavam como fonte de revelação ( em contraposição ao catolicismo com que Lutero rompia onde a Tradição e as Encíclicas Papais tinha valor de Verdade). Efeito deste Sola Scriptura, o protestantismo não deixa margem ao mistério, ao não dito. Há sempre uma palavra de resposta, tudo estaria dito nas Escrituras, bastando uma exegese adequada. Uma consequência desta interpretação é que quase não se produz uma, dirííamos assim, Arte Protestante, dada a dificuldade de se jogar com o misterioso. É neste sentido que assemelho o uso da psicanálise, por muitos, à religião: os dizeres da psicanálise, sua “revelação” seriam suficientes para a compreensão de tudo e de todos. O que estiver fora do campo analítico seria anátema, maldito, menor, tal como no protestantismo. Freud explica.

  2. Pingback: Em defesa das redes sociais (advogada do diabo). | Sintoma Livre

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