Namora, mas adora um “zap zap”.

safadeza

O título é uma expressão popular. Descobri recentemente que é quase um chavão. Eu queria alugar um antropólogo pra me ajudar. E outro para me dizer se, em alguma tribo do faroeste da Polinésia, antropólogos são alugáveis. Vocês conhecem o Whatsapp, não é? Pois eu só conhecia de nome até pouco tempo atrás quando resolvi tomar vergonha e trocar de celular. Trata-se de um aplicativo para smartphones (telefones móveis cuja a serventia menos importante é o “falar” tradicional) de troca de mensagens, bastante rápido, prático e eficaz.

Mas vamos às apresentações e hipóteses antropológicas: O “zap zap”, apelido carinhoso do aplicativo, parece estar entre o Facebook e o Tinder. O “Face” dispensa apresentações. O Tinder é uma rede social cuja finalidade original ou construída com o tempo é, deliberadamente, “conhecer alguém”. Este último parece uma versão atualizada de instrumentália do demônio Incubus/Succubus (demônios da sedução sexual que invadem homens e mulheres durante a noite a fim de sugarem suas energias vitais), a ponto de um grande amigo se perguntar, “cara, quem eu pegava antes de ter celular?”. O Facebook, bem mais popular, fica mais como um um dispositivo pós moderno de lamentações, ensinamentos budistas, hiperexposição e, principalmente, status público. Em um você se expõe no quartinho, no outro, se expõe ao povo. A síntese destes extremos, ao menos nesta mini-aventura, é o Whatsapp, que representa aqui o invejado paraíso onde o Outro goza livremente, sob a ótica da luneta do neurótico. No entanto, com um semblante de inocência e seriedade, já que estar cadastrado nele não necessariamente significa que você está mal intencionado… Mas pode. E saber disso gera uma maneira bem específica de subjetivação. Diga-me onde se cadastrou que eu te direi quem és. Medo, não é?

Mas a prova disso é que, pra muitos, que tem ou não um compromisso amoroso, ter “Face” é obrigatório (pra expor o status, que é tipo usar ou não aliança).Tinder, tem, assim, um quê de meio proibido. Já conheci casais que se separaram porque descobriram que o parceiro tinha Tinder. Por que? Em uma sociedade cristã, como a que vivemos, convencida durante 2000 anos a ter uma opinião qualquer sobre o prazer (e vejam que o problema não é só condenar o prazer, é ter uma opinião sobre ele que o torne tanto proibido quanto obrigatório), ter a intenção, por si só já é estar em pecado.

E sim, eu fiz um apanhado geral de falas sobre as redes sociais (desculpem colegas, vocês estavam sendo usados). E descobri mais coisas. Quer saber qual é um dos maiores diferenciais do whatsapp em relação aos outros? Você apaga as mensagens em poucos segundos. Isso pode não fazer diferença pra você. Mas pra quem namora, mas, adora um “zap zap”, são segundos preciosos que definem os rumos de sua vida amorosa justamente no momento em que o “mozinho” pede o celular emprestado. Descobri também que as pessoas pensam que esse bichinho transforma. Não, eu também não acredito que transforma as pessoas. Mas parece que o aplicativo é um dispositivo de desenvergonhamento e uma permissão para o cinismo. Talvez uma expressão da subjetivação à qual citei. Se a gente tem um território pra pisar, a gente se adapta a ele e à tribo nativa.

Por último. Muitos que usam intensamente a rede são paranóicos e desconfiados. E não era de se esperar algo diferente nessa fiscalização massiva. Se posta foto em um grupo, o outro vê, que passa pra outro grupo, que cria uma história. E, de repente, taca pedra na Geni! Olha lá o canalha! Você viu o chifrudo!?
O ser humano não tem muita solução. Desde que mundo é mundo, o sexo do outro interessa, porque isso alimenta o desejo. A sensualidade se constrói a partir da especulação sobre que o outro quer e do jeito que o outro goza. Papai e mamãe, ciúmes, toda a parafernália, apimentada com devires edipianos, que se modula online.

É a vila do Chaves na cidade grande, onde todo mundo desconfia que Dona Florinda tem um caso com o Girafales, e todo mundo torce pra isso. Claro, fica mais fácil quando não somos casados com a Florinda ou apaixonados pelo Girafales. Mas quase todo mundo busca, na imaginação, uma cena, invejada ou enciumada, tanto faz. Todo mundo alimenta o esquema, usuários e traficantes de informações. E desse sempre. Antes, os casais compartilhavam a senha do banco, hoje tem conta conjunta no Facebook, na tentativa de entender e dominar as economias (libidinais) do outro. Mas o incrível, veja, isso só alimenta a fantasia de que há algo a se ocultado. E há de haver! A gente mantém um grau de distanciamento nesse saber sobre o outro pra manter o desejo vivo… Quando acha que sabe tudo, procura o segredo.
Enfim. Namora, mas adora trocar mensagens escondidas. Resta saber quem adora mais, quem imagina que faz parte ou quem supõe estar de fora.

fotinha lucas
Lucas Vinco é psicólogo em Ribeirão Preto, psicanalista, mestre em Saúde Pública pela Escola de Enfermagem da USP, professor de psicologia e gestão de pessoas na REGES – RP, psicólogo na Saúde Mental e nos Recursos Humanos na prefeitura de Sertãozinho.

2 comentários sobre “Namora, mas adora um “zap zap”.

  1. Já vi sim alguns casais se separarem pelo tal “zap zap”.
    Quando o casal não tem confiança, acho que o famoso ditado “quem procura acha” é super válido, pois acho que não dá para viver amando sem confiar na parceira da qual você escolheu.
    Sim, muitos ainda se acham espertões em tentar encontros as escondidas, mas quando na verdade ele pode estar deixando um amor sincero escapar.

    Ainda sim acredito em casais que são sinceros e lutam juntos para levar uma vida saudável.

    ZAP ZAP, Facebook, Tinder, não vieram para esfregar relações! O objetivo de todos esses é aprimorar a comunicação entre pessoas, criar laços e outras coisas boas, porém nós (sociedade) estragamos as coisas boas da vida!

    Esse negócio de conta conjunta no “facebook” e em outras redes sociais é a PIOR da desconfiança já existente!

  2. Pingback: Em defesa das redes sociais (advogada do diabo). | Sintoma Livre

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