Em defesa das redes sociais (advogada do diabo).

Facebook-Promoted-Posts

Já sei, já sei, já sei que muito já se fala sobre tecnologia, sobre desumanização das relações, sobre distância, relações artificiais…Já sei! Não serei mais uma voz a tratar deste tema, já estamos cheios desses “avisos”. Proponho pensar por outro caminho: Porque serve tão bem estes dispositivos virtuais de contato? Porque caímos na rede?
Acredito que o que nos é oferecido (ou mesmo imputado) ajuda a moldar nossa subjetividade sim, mas e a via inversa? Porque os aceitamos? Porque o facebook fez um “boom” mundial? Não sei, mas quero criar uma linha de reflexão. Prepare-se que o próximo parágrafo é em primeira marcha.

O Facebook e o Whatsapp, por exemplo, nos oferecem informações e trocas muito variadas ( possivelmente ricas e potentes sim!! E sou uma entusiasta do uso da internet para contatos declarada). O detalhe é que eles atuam em uma velocidade altíssima: posso mandar a mesma mensagem para 10 pessoas em questão de segundos e posso criar um evento no face em alguns minutos (se me propor a alguma reflexão sobre o que vou escrever). Mas ,e se as benditas 10 pessoas resolvem me fazer alguma pergunta? Quanto tempo demoro para responder? A resposta é a mesma para todos?… E o tempo vai correndo… Rápido! Rápido! Você usa um aplicativo rápido! O tal “evento” no face não pode ficar apenas na virtualidade, preciso realiza-lo em termos concretos também; se for uma festa de aniversário e precisar sair pra comprar bexigas, quem vai responder as mensagens que podem chegar? Peraí, deixa eu responder aqui pelo meu celular, depois decido qual será a cor das bexigas, afinal, isso é irrelevante, não é? Preciso ouvir a sugestão que a Mariazinha está me dando aqui sobre os brigadeiros, ops, espera, o Joãozinho está dizendo que devemos servir outro tipo de doce, hum, o que é mesmo que eu vim comprar aqui? E, será que tem alguém que, além de palpites, consegue vir me ajudar a enrolar esses brigadeiros? – Quer dizer que você perde tempo da sua vida enrolando brigadeiros? Ao invés de ir curtir aquele post com fotos de doces e dizeres tão profundos? Poxa, meus pêsames – ufa, fim do parágrafo.

Eu não processo informações e experiências tão rapidamente quanto o Facebook, meu HD interno não comporta tudo que ele me oferece, e, se tento funcionar tão rapidamente quanto ele meu cérebro pifa, e não há mais espaço para quase nada que não seja um post de gatinhos bonitinhos (confesso que adoro este tipo!). Rápido também pode significar “sem contraste”, já reparou o que ocorre se girar um catavento com todas as cores (Disco de Newton)? Branco ou cinza é o resultado. Já reparou o que ocorre se você trocar 1.000 mensagens em apenas um dia? – Você tem o aplicativo para tal, não significa que deva usá-lo assim ou assado.

E no fundo, da uma vontade de ser mais rápido, mais potente, mais “visto”- essa é a propaganda, mas, do que é que eu gosto mesmo nessa vida? De ser rápido? Pra quê? – Se o Facebook for um bom camarada ele dirá: “Não seja eu, eu sou imbecil, apenas me use para o que desejar vir a ser”.

Posso conhecer alguém através da internet, mas se ele estiver só atrás da tela nunca conseguirei introjetar sua existência em mim, e, assim, nunca sobreviverei a ausência deste ser que por não existir dentro de mim, não poderá ir e voltar sem que eu me sinta desesperada pelo seu “sumiço” – Ah, mas peraí, tenho internet para averiguar a existência da pessoa querida 24 horas por dia, ufa! Achei que ia ficar louco! – O risco é o mundo virtual substituir o mundo interno, esse mundo onde guardo pessoas queridas, onde elas existem mesmo que não as veja, onde só estão ausentes ( e não “não existentes”).

Assim como os dispositivos virtuais, a psicanálise também “não é” ninguém, nenhum psicanalista pode alegar carregar (ou ser) a “verdadeira psicanálise” (aqui eu sugiro o texto da Daniela Torres http://sintomalivre.com.br/2014/05/05/sobre-a-psicanalise-enquanto-religiao/). Totens psicanalíticos inquestionáveis correm o risco de se tornar telas de computador do tipo infértil, de fazer contatos teoricamente potentes e rápidos, mas que não “entram” ( não são “introjetados”). E aí, o que realmente sobra? Restos, restos e mais restos onde poderia existir apenas ausências e presenças.
Ah ! Que saudade das pessoas Manuel Bandeira! Aí vai uma poesia:

Porquinho-da-Índia

Quando eu tinha seis anos
Ganhei um porquinho-da-índia.
Que dor de coração me dava
Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!
Levava ele prá sala
Pra os lugares mais bonitos mais limpinhos
Ele não gostava:
Queria era estar debaixo do fogão.
Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas…
— O meu porquinho-da-índia foi minha primeira namorada.
(Manuel Bandeira, Melhores poemas de Manuel Bandeira)

Obs: Para mais reflexões sobre o “mundo virtual” – http://sintomalivre.com.br/2014/05/08/namora-mas-adora-um-zap-zap/

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Manoela Ferreira gosta de internet, é psicóloga clínica em Ribeirão Preto, formada pela FFCLRP-USP e organiza o “Entretantos”.

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