De que brincam os adultos?

fada II

Muito se fala entre psicólogos sobre a importância do brincar para a criança. Para quem não estiver muito familiarizado, a ideia é a seguinte: brincar, no caso da criança, não é uma questão de lazer, mas uma atividade fundamental para que ela se desenvolva de maneira saudável.
Não parece, mesmo no caso das crianças, que esta maneira de conceber a brincadeira seja tão levada a sério. Sabemos bem o quanto as crianças, muitas vezes, acabam abarrotadas de tarefas: ballet, judô, natação, e tem até quem valorize uma escola por oferecer ensino de língua estrangeira para mini-pessoas que nem tenham conseguido ainda pronunciar corretamente as palavras do nosso português. Mas desde o “objeto transicional” de Winnicott (o ursinho, o paninho, ou qualquer coisa ensebada que a criança carregue consigo) e do “fort-da” de Freud (ou, para nós brasileiros, a boa e velha brincadeira do “cuti-achou”) já sabemos que criança tem que brincar!
Bem, mas não é à brincadeira infantil que estou me referindo, mas sim àquelas dos adultos (e, embora possa ser uma atividade bem divertida, não me refiro aqui a um eufemismo para o ato sexual). Afinal, como brincam os adultos?
Sim, caro leitor, adultos brincam. E, ao contrário do que se diz por aí, para nós brincar também é indispensável. Não se trata apenas de dar um tapa nas costas do seu amigo e fazer uma chacota com a camisa rosa-fúcsia com a qual ele apareceu em plena segunda-feira. Trata-se de fingir ser algo que não se é, viver situações em fantasia, imaginar sem critérios e, num piscar de olhos, voltar ao ponto de partida.
Ofender até a quinta geração do colega numa pelada de final de semana e, logo em seguida, tomar cerveja junto com ele, sem sequer se lembrar do que aconteceu minutos antes. Jogar videogame e matar velhinhas indefesas de maneira sanguinária. Chamar aquela sua amiga magra que apareceu de roupa listrada de “aedes aegypti”. Ninguém se ofendeu, ninguém matou, ninguém virou mosquito, e assim descansamos um pouco do real, na medida do possível.
Adultos não estão livres de algumas coisas que são próprias da condição humana e, nem por isso, deixam de ser (muito) incômodas. O medo da morte, seja para um paciente com câncer terminal, seja para o dono de um canário belga que não cantou esta manhã. A solidão existencial, aquele abismo que separa uma pessoa da outra (e que se faz especialmente presente quando você decide ler os comentários abaixo de um texto da internet) ou quando temos que tomar decisões a respeito das quais ninguém poderia opinar. Tudo isso, amigo, não há como se resolver no plano das “seriedades”.
Estar vivo não é moleza para ninguém! Não importa se somos crianças, adultos ou velhos, participamos todos de uma brincadeira que tem hora pra acabar. Melhor mesmo é se divertir enquanto isso.

IMG-20140419-WA0000Daniela Torres é psicóloga clínica em Ribeirão Preto e pesquisadora do Laboratório de Etnopsicologia da FFCLRP-USP.

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