Só os outros morrem

fantasminha

Uma vez, no supermercado, escutei um garoto de uns seis anos falando pra mãe que nunca iria morrer. Ele dançava no corredor, com os braços abertos e rodopiando. Parecia um pouco angustiado na verdade, dançando para afastar os maus pensamentos. Daquela vez, pensei: “ingênuo”. Hoje, concluo que ele tem razão.
Ninguém capta a vida. Ninguém entende que está vivo, só o deduz porque sabe da presença da morte, que é sempre externa e inalcançável. Vide os esforços místicos e religiosos para fazer você tocar a vida, se encontrar com seu espírito, técnicas de meditação durante dias a fio, orações intermináveis, psicotrópicos reveladores, só para ter pequenos encontros com algo não tão óbvio como a observação de que se está vivo. Uns anos de análise também podem te levar a alguns encontros semelhantes.
Como era para você antes de você nascer? Não era. O que é tem que ter nascido. Pode até ter morrido, mas era, ou foi, ou qualquer tempo do verbo ser. A língua inglesa ajuda um pouco neste assunto, porque ser e estar estão na mesma palavra, aproximando o sentido de ser do agora, mais próprio ao estar. Você pode argumentar que algo era, algo estava lá antes. Mas isto funciona como a percepção da morte dos outros, a morte que você vê, mas que para você, já dito, é externa e inalcançável.
Você não morre, nunca. Você só sabe que morre. Só os outros morrem.
Não ser é vazio, é nada. Mas impressiona o quanto este não ser nos é fundamental e estruturante. Não é porque não é que não tem efeitos.
Existe uma passagem do romance do Kundera que diz ser a vontade de pular o maior problema da vertigem causada pela altura, e não o medo como estamos habituados a concluir. Outro exemplo são as brincadeiras de medo da minha geração: a Loira do Banheiro, a brincadeira do copo, ah! A brincadeira do copo. A gente se borrava. E assistir filme de terror? Até hoje! Eu, particularmente sou obcecado por apocalipses zumbis. Tudo isso requer sua intenção e ação. O medo da altura aparece quando você vai até a janela, nas vezes que se espera a vertigem. O aparecimento da loira e o momento em que o copo se mexe sozinho requer todo um ritual. Até pra ver um filme dá um trabalho. Não quero um apocalipse, e muito menos que espíritos malignos me atormentem uma vida inteira. Também não tenho a menor pretensão de saltar do prédio. Mas nós vamos. Roçando no que a gente acha que não é, a gente vai. Primeiro “não nos deixeis cair em tentação” e só depois “livrai-nos do mal”. Primeiro dentro, depois fora. Amém!
Tem um pedaço do desejo está aquém de tudo isso que a gente faz depois de ter nascido. Vez ou outra o que o desejo quer é tentar revisitar sua origem lá atrás, mas ele só encontra isso se aproximando fim, o máximo que dá. Por isso, no osso, o garoto nunca vai morrer. Mas ele ensaia, talvez dançando.

fotinha lucas
Lucas Vinco é psicólogo em Ribeirão Preto, psicanalista, mestre em Saúde Pública pela Escola de Enfermagem da USP, professor de psicologia e gestão de pessoas na REGES – RP, psicólogo na Saúde Mental e nos Recursos Humanos na prefeitura de Sertãozinho.

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