Analise por quê? (parte 2 ou a queda do sentido)

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Da ultima vez estava dizendo das diferenças entre fazer ou não uma análise e das diferenças que ficam marcadas a cada sessão. Ficam marcadas, ao longo do processo analítico, tanto a sua diferença, sua singularidade, em relação aos outros e ao mundo, bem como a diferença entre os sentidos anteriores e posteriores. Também, e mais ainda, um dos interessantes efeitos promovidos por um ato analítico não é tanto a substituição de um sentido por outro, mesmo que ele pudesse ser melhor ou mais adequado, e sim a queda de alguns sentidos que são carregados por você.
O que traz sofrimento a um sujeito é justamente o excesso de sentidos que ele traz à tona diante da contingência da vida. Isso faz com que apareçam a culpa, a sensação de merecimento de uns em detrimento de outros, outros aos quais normalmente nos identificamos, injustiça, prejuízo, condenação, destino cruel, etc.
Se tudo corre bem na vida, não há grandes questionamentos, tudo passa quase despercebido. Se algo desagradável acontece, ansiogênico, amedrontador, logo vem a tentativa quase sempre equivocada de “dar sentido”. Deveríamos concluir, por costume antropológico, que dar sentido às coisas que vivemos é característica imanente do ser humano e que, portanto, eu estou falando bobagem quando cito a queda dos sentidos. O que ocorre é que digo de uma particularidade de juízos de valor que abre o leque para seu oposto, para manter a fantasia intacta.
É mais ou menos assim, se sofro, sou culpado. Suponho que alguém, cujo juízo me parece consistente o suficiente para credenciá-lo como dono da verdade, deve também saber da minha verdade, e nisso reside a minha única esperança de saber dela também. Aqui está um dos princípios da análise, procurar alguém que supostamente saiba do meu sofrimento e, portanto, possa me tirar dele. Outro ponto, sobre a fantasia, é que ela protege da aleatoriedade, porque trata-se de um enredo com final feliz, permitindo que você possa caminhar nas ilusões das certezas. O outro lado da fantasia é seu imperativo, sua crueldade, o próprio sentido de “felicidade” que se impõe como obrigação. Disso temos duas conclusões famosas na psicanálise: primeiro, a fantasia é sempre sadomasoquista, segundo, o sujeito que sofre, no fundo, está sempre feliz.
Cabe ao analista lograr e rechaçar ao mesmo tempo este lugar da fantasia, num cálculo tênue que ao mesmo tempo que sustente a transferência, mas que também possibilite a emergência verdades singulares do analisante e não as dele próprio, ou a de discurso maestral qualquer. A verdade do sujeito não necessariamente é sem juízo, mas o mesmo pode passar a ser encarado muito mais no seu valor de semblante e disposto ao entendimento do que de consistência e disposto ao amor. Em outras palavras, você passa a amar menos a regra de sentido, e aí sim pode entendê-la e usá-la, às vezes até possuí-la. Mas aí fica a pergunta: o que passa a ser amado, então, depois?

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Lucas Vinco é psicólogo em Ribeirão Preto, psicanalista, mestre em Saúde Pública pela Escola de Enfermagem da USP, professor de psicologia e gestão de pessoas na REGES – RP, psicólogo na Saúde Mental e nos Recursos Humanos na prefeitura de Sertãozinho.

Nem tudo que reluz é ouro, nem toda dita regra é opressão, nem todo dito limite é proteção, nem todo título de texto é curto. Por uma análise crítica das falas analíticas.

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Quem nunca ouviu dizer que “tal pessoa não tem limite´´? Quem nunca realizou um estudo de caso onde a falta de limite foi “a bola da vez´´? Pois bem, muito bonito e bem-apessoado, mas, do que estamos falando? Precisamos de alguma reflexão para não papagaiarmos falas analíticas. Esta é uma tentativa disso.Tentativa, sempre.

Se não tenho contorno, se não tenho “ o que não é´´, o que pode existir? O computador que uso para digitar tem borda, ele não é máquina de escrever e nem bicicleta, só é computador pois tem limites – vou pensando assim em limite como borda criativa que permite algo existir.

Mas, o limite de hoje pode não ser necessariamente o limite de amanhã, assim como a regra de hoje pode não ter mais sentido amanhã, se não pudermos pensar o limite como um modelo que pode caducar, então ele será um entrave ao desenvolvimento, certos modelos precisam se esgotar no passar das vivências pessoais.

Partindo aqui da premissa que existiria um tanto “suficientemente bom´´ de limite/regra (já estou abandonando a idéia de dividir estes conceitos em dois) para cada um, para cada história, cada desejo, necessidade e experiência; penso que uma vida com regras excessivas pode ser prisão (um tipo de ditadura do medo) e “sem´´ regras um vácuo de dar dor no peito. Não reconhecer limite resulta na não definição de um mundo externo a mim, assim como limites demais anulam a identidade – sobra só o protocolo.

Gosto de pensar os limites como contornos pra podermos nos enxergar. Poder ir tateando, pensando, experienciando, questionando, pode resultar na ampliação do acesso à realidade (vista aqui como “cenário da existência´´ – pessoal, claro), e assim eles já podem ser tidos como “protetivos´´ e servos da criatividade

O limite como o inevitável, que se reconhecido pode cooperar com a existência é diametralmente oposto à regra estéril que visa acalmar um medo de não-sei-oquê. Lembremos que já nos disseram que rir é proibido, coisa do diabo. Ainda bem que até pecado atualiza.

Assim, psicanálise, cuidado você também para não aprisionar vossos pacientes em teorias descontextualizadas, assim como não deixá-los soltos, sem referenciais em pró de uma liberdade sem propósito. Corda bamba. Vamos tentando.

“Pensando em conseguir de uma só vez todos os ovos de ouro que a galinha poderia lhe dar, ele a matou e a abriu apenas para descobrir que não havia nada dentro dela.´´ (Esopo).

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Manoela Ferreira é Psicóloga Clínica em Ribeirão Preto, formada pela FFCLRP-USP e organiza o “Entretantos”.

Como me afoguei em um mar de rosas

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Quando nasci, um anjo iluminado, desses que vivem no topo do chafariz soprando água, me disse: vá Lindobela, vá ser vencedora na vida!
E lá fui eu, saltitante e distraída, colhendo rosas pelo caminho, garantida que estava contra toda sorte de adversidades. Só fazia aquilo que me concederia vitória e, por isso, não fazia muita coisa.
Certo dia, ocupada em uma de minhas piruetas (umas das três coisas que eu fazia com excelência), tropecei em uma pedra. Não era um diamante, era só uma pedra mesmo, o mais vulgar dos pedregulhos. E de repente, me dei conta de que aquele anjo, que também era de pedra, andou me contando mentiras: nessa estrada onde estou, não há somente ladrilhos de brilhante!
E todo o brilho que me recobria, subitamente escorreu como um balde de água na cabeça. Já não era mais a menina mais linda do mundo, conforme mamãe sempre me falou. Também nem sempre bastam forças pra lutar, conforme a Xuxa me prometeu.
Ao me dar conta do engodo, tratei logo de dar um pontapé naquele anjo mentiroso, que caiu como um boneco (coisa que ele nunca deixara de ser). Envergonhada, me sentei à beira da fonte, com aquele olhar de melancolia contemplativa, típica dos decepcionados. Depois, me levantei, tirei a poeira do traseiro e, cabisbaixa, fui dar uma volta e averiguar quantas folhas secas sempre estiveram por lá sem serem notadas por mim. Entre folhas, pisei em flores, chutei diamantes (já era tarde para aparecerem). Por quê comigo? Justo eu?
De repente ouço um “plim plim plim”, vejo uma fumacinha malcheirosa e, de um esgoto entupido, sai um rato. Feio, cinzendo, arrastando uma longa cauda escamosa e quebrada, mas até que tinha seu charme. Ele parou em frente ao buraco e, aborrecido com minhas queixas em voz alta, retrucou minha pergunta:
E por que não você?!
Virou as costas sussurrando um “folgada”, e foi se alojar em outro canto.
Pois é… Desde então, dia após dia, almejo mais difícil das vitórias: ser só mais um gauche.

IMG-20140419-WA0000Daniela Torres é psicóloga em Ribeirão Preto, pesquisadora do Laboratório de Etnopsicologia da FFCLRP-USP.

Análise por quê? (Parte 1 ou prelúdio)

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Por quê? Você sabe bem porquê. Você sabe, pois o inconsciente é raso, e não profundo como estamos acostumados a interpretar. Mas você não sabe exatamente do que se trata este saber. Por um motivo estranho qualquer, lá está você de volta, na ideia de começar uma analise, na ideia de sair da analise, na ideia de mudar de analista ou dentro do consultório do analista. Vai saber.
Evidente que falo de quem tem um mínimo de transferência com este mundo “psi” de psicoterapia, terapia, análise, psicanálise, essas coisas aí. E coloco assim, jogado e sem distinguir por enquanto, de propósito, porque essas “coisas aí” guardam em comum o fato de você ir falar de si, principalmente do que o faz sofrer, para alguém. Tem gente que não tem nada disso atravessado em si, vive sem e vive muito bem, obrigado. Análise não é pra todo mundo, nunca foi e nunca vai ser, senão estaríamos no campo da religião. É desse ponto que quero partir. Entrar em processo analítico não é melhor nem pior que não entrar. Mas é diferente. E esse processo não significa apenas freqüentar um consultório, claro. Isso fica meio evidente pra quem passou por essa experiência e isso pode se tornar um problema. O sujeito vê ou quer acreditar que as coisas vão melhorando um pouco na vida e começa a pregar a análise igual religião. Recebi uma paciente esses dias, extremamente incomodada com a sensação de que o fato de estar freqüentando um psicólogo transmitia a sensação de aderir a uma torcida de futebol. Salvas as devidas questões específicas deste sujeito, acredito que a questão é legítima. Pra quem trabalha com isso, deveria a até ser boa a sensação de que tem muita gente falando dos benefícios deste tipo de tratamento, mas o tiro no pé também pode ser certeiro. Lembrei agora duma discussão que presenciei no tempo da faculdade, em que o principal argumento de uma das partes era “eu faço analise”. Sem mais.
Mas vamos lá, isto tudo foi só um prelúdio. Um jeito de dizer quem não direi do que acredito que passe pela sua cabeça, por passar na minha, ao dizer sobre fazer análise. Como disse, é no mínimo diferente de não fazer. Cada sessão, se bem conduzida, marca um ponto que torna a experiência de vida irreversível depois dele. Uma sessão de análise prova que o principal responsável pelo sofrimento relatado é o esforço que você faz para voltar sempre ao mesmo ponto. Depois de um tempo, a gente vai tendo menos medo da diferença que se impõe depois de uma sessão, acaba desenvolvendo até uma simpatia pela aleatoriedade do mundo. Logo menos, continuaremos este monólogo articulado.

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Lucas Vinco é psicólogo em Ribeirão Preto, psicanalista, mestre em Saúde Pública pela Escola de Enfermagem da USP, professor de psicologia e gestão de pessoas na REGES – RP, psicólogo na Saúde Mental e nos Recursos Humanos na prefeitura de Sertãozinho.

Meu conserto para corpo/mente.

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Em um concerto, um momento.
Que não importa se realmente está li.
Não por desconsiderar.
Mas por saber que lugares não existem, promessas também não.
Da pra ouvir melhor a música assim, e perceber que quase tudo é possível.
Esse quase que conota tantas impossibilidades, mas que importa?
Não saberemos quais são elas, e assim, pode-se viver mesmo os sonhos que não existem.
Ninguém chega ao fim da linha e encontra um atestado de veracidade, sonho não tem fim.
Mas tem começo…começa no primeiro acorde que se pode ouvir, e quando o som ficar baixo, não vai dá pra saber se é uma passagem ou o fim de uma sonata.
Não vale muito à pena ficar no intervalo, as pessoas comentam, criticam, elogiam, como se fossem capazes de julgar o que acontece… prefiro ver alguém repuxar o canto da boca como quem diz não dizendo: “Você ouviu né…eu também…”

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Manoela Ferreira acha que felizmente nunca terminaremos os nossos consertos. É psicóloga clínica em Ribeirão Preto, formada pela FFCLRP-USP e organiza o “Entretantos”.

Porque beijamos na boca?

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*Título original: “Sobre ósculos e protozoários”

Certa vez vi um vídeo no qual estranhos se beijavam pela primeira vez diante de uma câmera. Tal cena me suscitou uma série de questionamentos acerca do momento em que, pela primeira vez, duas pessoas se beijam (não necessariamente estranhos, mas que nunca houvessem se beijado na boca antes). Fiquei um tempo divagando e tive algumas ideias, a respeito das quais falo neste texto.
Depois descobri que se tratava de uma propaganda e que muitos eram atores. Não importa. O que o vídeo suscitou em mim, a inquietação que produziu, não depende da veracidade daquele vídeo específico. O fato a que ele remete já é de uma verdade tão pungente que é bastante difícil descrever. Dessas coisas que lacanianos diriam que toca o real (ou pelo menos passa bem perto). Vou, então, tentar contornar.
Em primeiro lugar, o que me provocou questionamentos é o próprio ato de beijar na boca. Quando adolescente, eu costumava pensar um beijo como uma espécie de fagocitose e, em determinados momentos, me causava estranheza a quantidade de construções sociais criadas em torno desse ato de “passar a sua língua na língua de outra pessoa”. Afinal, porque isso é tão diferente de um esfregar de cotovelos? Reis são depostos, deflagram-se guerras, famílias se fazem e desfazem, ações da bolsa caem em consequência de um… Roçar de línguas?! Bem, confesso que minha estranheza não diminuiu muito dos meus quinze anos pra cá. Apenas respeito o fato de que acontecimentos drásticos podem ocorrer e não saio por aí experimentando o mundo à moda protista.
Ao mesmo tempo, hoje comparo o beijo mais com um bebê colocando coisas na boca do que com uma ameba. E me contento com a constatação de que a boca é mesmo um órgão privilegiado de contato com essa coisa que é “o mundo do lado de fora da bolha de pele onde eu vivo”. Não resta muito além de tentar contato com o vizinho da bolha ao lado e tentar, sempre sem muito sucesso, construir alguma ideia do que possa haver além desse habismo que me prende inevitavelmente à minha própria existência. Por um lapso de tempo, fui testemunha do aprisionamento do outro (no beijo). “Nossa, tem alguém ali do outro lado!”, parece ser a sensação de quem, trancado no quarto, ouve passos do outro lado da porta.
Outra coisa que me veio à cabeça é o corte causado pelo primeiro beijo em alguém. A partir do momento que você conhece alguém, digamos, pela saliva, o sujeito se divide em antes e depois de ser beijado por você. É como se ali nascesse um (a) novo (a) “fulano (a)”. Este “a” entre parênteses, inclusive, é bastante conveniente a este texto. Claro, aqui ele serve para flexibilizar o gênero a que eu me refiro, mas utilizo a licença poética para transformá-lo no tão falado “objeto a”, o “objeto causa do desejo”. É isso que nos iludimos estar perdido em algum lugar, em baixo da língua ou em outra parte qualquer do corpo desse ser desejado e, depois, beijado. Acontece que é tudo não passa de miragem e você, vergonhosamente, se depara como alguém que, diante de um espelho muito limpo, enfia a cara no vidro por não perceber que a pessoa do outro lado é ela própria. Não por acaso, o momento de interromper o primeiro beijo é sempre acompanhado de certa dose de constrangimento.
Para mim, é o momento de, com alguma vergonha, se desculpar: Perdão por tentar te fagocitar. É a vergonha do pretensioso que se vê fracassado mas, ao abaixar a cabeça, quase sempre damos de cara com a testa do outro, também cabisbaixo. Esta “derrota” compartilhada é, então, um fragmento de cumplicidade que será guardado para sempre. O divisor de águas não é, afinal, o beijo em si, mas a constatação do malogro (também) do outro. E agora, irreversivelmente, aquela pessoa carrega algo de você, um fragmento ímpar de experiência. Não pode haver cumplicidade maior do que compartilhar o que há de mais intrinsecamente humano: a impossibilidade.

IMG-20140419-WA0000Daniela Torres é psicóloga clínica em Ribeirão Preto e pesquisadora do Laboratório de Etnopsicologia da FFCLRP-USP.

A violência vem do outro

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Certa vez recebi um e-mail de uma leitora perguntando a minha opinião a respeito do crescimento dos índices de violência, a despeito do aparente aumento de dispositivos de inclusão social, como projetos sociais, vagas em escolas públicas, além de uma diminuição das taxas de desemprego.
Andei investigando e, de fato, houve diminuição da evasão escolar, das taxas de desemprego e, sem dúvida, há uma infinidade de projetos sociais espalhados por aí, embora de graus de qualidade bem variáveis. Mas afinal, por que a violência continua aumentando (o que também se pode confirmar aqui)?
Em primeiro lugar, me chama a atenção o fato de, neste contexto, o termo “violência” se referir, via de regra, a um determinado grupo de ações criminosas, a saber: homicídios, furtos e roubos (aqui contidos os assaltos nas ruas, trânsito, em casa e os latrocínios -roubo seguido de morte-). Eu poderia fazer uma pergunta retórica, do tipo “será que são estes os únicos tipos de violência que vivenciamos no contexto urbano?”. Vou, entretanto, ser mais direta e afirmativa: este tipo de crime não é o único e talvez não seja o pior (mais frequente ou mais avassalador) tipo de violência urbana. Digo mais: o próprio fato de restringirmos este termo ao um tipo específico de ação violenta é, por si só, um ato de violência.
Para explicar meu ponto de vista, questiono o conceito de crime, tal como se concebe no senso comum. O “bandido” tão falado no dia a dia não é o que comete qualquer crime, mas aquele que comete os crimes acima citados. Ficam de fora todos aqueles que cometam estelionado, extorção, desvio de verbas públicas, crimes estes que podem causar também danos diretos à vida (é só pensar, por exemplo, na falta de assistência médico-hospitalar em decorrência de um desvio de verbas na área de saúde). Ficam de fora, especialmente, os criminosos pertencentes a grupos socioeconômicos mais abastados, mesmo se tiverem envolvimento mais direto com homicídios pois não costumam “sujar as mãos”. Em todos os casos, o que acontece é que ricos matam, mas por “procuração”, ficando portanto isentos da insígnia de assassinos.
Violência é todo ato que vise calar/anular manifestações de alteridade. Podemos calar o outro matando-o, mas esta não é a única forma de o fazer. Podemos impedir que ecoe sua voz, que manifeste seu saber, sua cultura, anular sua existência social, deslegitimar seus lugares simbólicos. Podemos impedir que gays andem de mãos dadas, expulsar negros de periferia dos shoppings centers, xingar mulheres no trânsito.
Mais ainda: podemos esfregar na cara da sociedade nosso sucesso meritocrático (um bom carro, a aprovação em um vestibular público) como forma de dizer a todos os outros, que não atingiram tal meta, que são incapazes ou que não fizeram o suficiente para tal. Podemos dizer que violentos são os outros e que os nossos são “corruptos”.
Esta violência decorrente do tráfico de drogas e da desigualdade social (não da pobreza) é, portanto, só mais um tipo dentre muitos e acho ingênuo requerer que apenas esta violência cesse, sem que haja um apaziguamento digamos, mais “geral” das suas diversas formas de manifestação.
Afinal, queremos que acabe a violência do outro. Queremos ficar a salvo dela, anular esta alteridade que, sendo negada por nós, invade nosso cotidiano, nossa subjetividade, nosso condomínio. Poderia propor diversos mecanismos de lidar com esta violência, mas proporei o que penso ser o mais fundamental: que lidemos, antes, com a nossa.

IMG-20140419-WA0000Daniela Torres é psicóloga clínica em Ribeirão Preto e pesquisadora do Laboratório de Etnopsicologia da FFCLRP-USP. É contra a redução da maioridade penal e concorda com Leonardo Sakamoto quando ele diz que a redução da maioridade penal já foi colocada em prática pelo estado de São Paulo (leia aqui).