A violência vem do outro

assalto

Certa vez recebi um e-mail de uma leitora perguntando a minha opinião a respeito do crescimento dos índices de violência, a despeito do aparente aumento de dispositivos de inclusão social, como projetos sociais, vagas em escolas públicas, além de uma diminuição das taxas de desemprego.
Andei investigando e, de fato, houve diminuição da evasão escolar, das taxas de desemprego e, sem dúvida, há uma infinidade de projetos sociais espalhados por aí, embora de graus de qualidade bem variáveis. Mas afinal, por que a violência continua aumentando (o que também se pode confirmar aqui)?
Em primeiro lugar, me chama a atenção o fato de, neste contexto, o termo “violência” se referir, via de regra, a um determinado grupo de ações criminosas, a saber: homicídios, furtos e roubos (aqui contidos os assaltos nas ruas, trânsito, em casa e os latrocínios -roubo seguido de morte-). Eu poderia fazer uma pergunta retórica, do tipo “será que são estes os únicos tipos de violência que vivenciamos no contexto urbano?”. Vou, entretanto, ser mais direta e afirmativa: este tipo de crime não é o único e talvez não seja o pior (mais frequente ou mais avassalador) tipo de violência urbana. Digo mais: o próprio fato de restringirmos este termo ao um tipo específico de ação violenta é, por si só, um ato de violência.
Para explicar meu ponto de vista, questiono o conceito de crime, tal como se concebe no senso comum. O “bandido” tão falado no dia a dia não é o que comete qualquer crime, mas aquele que comete os crimes acima citados. Ficam de fora todos aqueles que cometam estelionado, extorção, desvio de verbas públicas, crimes estes que podem causar também danos diretos à vida (é só pensar, por exemplo, na falta de assistência médico-hospitalar em decorrência de um desvio de verbas na área de saúde). Ficam de fora, especialmente, os criminosos pertencentes a grupos socioeconômicos mais abastados, mesmo se tiverem envolvimento mais direto com homicídios pois não costumam “sujar as mãos”. Em todos os casos, o que acontece é que ricos matam, mas por “procuração”, ficando portanto isentos da insígnia de assassinos.
Violência é todo ato que vise calar/anular manifestações de alteridade. Podemos calar o outro matando-o, mas esta não é a única forma de o fazer. Podemos impedir que ecoe sua voz, que manifeste seu saber, sua cultura, anular sua existência social, deslegitimar seus lugares simbólicos. Podemos impedir que gays andem de mãos dadas, expulsar negros de periferia dos shoppings centers, xingar mulheres no trânsito.
Mais ainda: podemos esfregar na cara da sociedade nosso sucesso meritocrático (um bom carro, a aprovação em um vestibular público) como forma de dizer a todos os outros, que não atingiram tal meta, que são incapazes ou que não fizeram o suficiente para tal. Podemos dizer que violentos são os outros e que os nossos são “corruptos”.
Esta violência decorrente do tráfico de drogas e da desigualdade social (não da pobreza) é, portanto, só mais um tipo dentre muitos e acho ingênuo requerer que apenas esta violência cesse, sem que haja um apaziguamento digamos, mais “geral” das suas diversas formas de manifestação.
Afinal, queremos que acabe a violência do outro. Queremos ficar a salvo dela, anular esta alteridade que, sendo negada por nós, invade nosso cotidiano, nossa subjetividade, nosso condomínio. Poderia propor diversos mecanismos de lidar com esta violência, mas proporei o que penso ser o mais fundamental: que lidemos, antes, com a nossa.

IMG-20140419-WA0000Daniela Torres é psicóloga clínica em Ribeirão Preto e pesquisadora do Laboratório de Etnopsicologia da FFCLRP-USP. É contra a redução da maioridade penal e concorda com Leonardo Sakamoto quando ele diz que a redução da maioridade penal já foi colocada em prática pelo estado de São Paulo (leia aqui).

2 comentários sobre “A violência vem do outro

  1. Oi Daniela adorei o artigo. Realmente envolvente e lida bem com os conceitos de “crime” e “violência”.
    Um comentário é que as taxas de desemprego não estão diminuindo. Existe uma maquiagem sobre o assunto relacionado a subempregos (principalmente em tempos de eleição). Concordo totalmente com as expansão do termo violência e que é sabido que os crimes que a gente raramente vê ou que causam impacto na maioria da população é pouco discutido (veja o propinoduto do metro de sao paulo que gastou 5 vezes mais dinheiro do que o contabilizado no mensalão). Fico preocupado apenas com sua última afirmação : que devemos primeiro lidar com a nossa violência. Concordo que ser exemplo e que nos livremos de amarras que distorcem nossa percepção seja importante. Porém, esse passo a passo, levaria (e digo isso como apenas minha opinião pouca fundamentada) uma eternidade, ou talvez mais, nunca aconteceria já que nem uma pequena fração da população possa passar por uma terapia, ou ser psicanalisada. Essa mudança e autoconsciência da nossa violência acaba se transformando em apenas uma censura ou o que seria menos válido, um descarte do problema. É preciso sim avaliar com clareza os problemas que geram, multiplicam e transformam a violência. Caso a caso sim, mas uma análise mais conjuntural e com propostas mais materiais, sejam dos mais pobres (acesso a programas de saúde, educação, moradia etc…) dos negros ( melhores salários, luta contra as diversas opressões, entre elas a principal, a opressão policial) das mulheres (direito ao aborto, creches, salários) seria para mim o mais fundamental. Um abraço e estarei sempre por aqui. Espero uma boa troca de idéias e experiências.

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