Porque beijamos na boca?

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*Título original: “Sobre ósculos e protozoários”

Certa vez vi um vídeo no qual estranhos se beijavam pela primeira vez diante de uma câmera. Tal cena me suscitou uma série de questionamentos acerca do momento em que, pela primeira vez, duas pessoas se beijam (não necessariamente estranhos, mas que nunca houvessem se beijado na boca antes). Fiquei um tempo divagando e tive algumas ideias, a respeito das quais falo neste texto.
Depois descobri que se tratava de uma propaganda e que muitos eram atores. Não importa. O que o vídeo suscitou em mim, a inquietação que produziu, não depende da veracidade daquele vídeo específico. O fato a que ele remete já é de uma verdade tão pungente que é bastante difícil descrever. Dessas coisas que lacanianos diriam que toca o real (ou pelo menos passa bem perto). Vou, então, tentar contornar.
Em primeiro lugar, o que me provocou questionamentos é o próprio ato de beijar na boca. Quando adolescente, eu costumava pensar um beijo como uma espécie de fagocitose e, em determinados momentos, me causava estranheza a quantidade de construções sociais criadas em torno desse ato de “passar a sua língua na língua de outra pessoa”. Afinal, porque isso é tão diferente de um esfregar de cotovelos? Reis são depostos, deflagram-se guerras, famílias se fazem e desfazem, ações da bolsa caem em consequência de um… Roçar de línguas?! Bem, confesso que minha estranheza não diminuiu muito dos meus quinze anos pra cá. Apenas respeito o fato de que acontecimentos drásticos podem ocorrer e não saio por aí experimentando o mundo à moda protista.
Ao mesmo tempo, hoje comparo o beijo mais com um bebê colocando coisas na boca do que com uma ameba. E me contento com a constatação de que a boca é mesmo um órgão privilegiado de contato com essa coisa que é “o mundo do lado de fora da bolha de pele onde eu vivo”. Não resta muito além de tentar contato com o vizinho da bolha ao lado e tentar, sempre sem muito sucesso, construir alguma ideia do que possa haver além desse habismo que me prende inevitavelmente à minha própria existência. Por um lapso de tempo, fui testemunha do aprisionamento do outro (no beijo). “Nossa, tem alguém ali do outro lado!”, parece ser a sensação de quem, trancado no quarto, ouve passos do outro lado da porta.
Outra coisa que me veio à cabeça é o corte causado pelo primeiro beijo em alguém. A partir do momento que você conhece alguém, digamos, pela saliva, o sujeito se divide em antes e depois de ser beijado por você. É como se ali nascesse um (a) novo (a) “fulano (a)”. Este “a” entre parênteses, inclusive, é bastante conveniente a este texto. Claro, aqui ele serve para flexibilizar o gênero a que eu me refiro, mas utilizo a licença poética para transformá-lo no tão falado “objeto a”, o “objeto causa do desejo”. É isso que nos iludimos estar perdido em algum lugar, em baixo da língua ou em outra parte qualquer do corpo desse ser desejado e, depois, beijado. Acontece que é tudo não passa de miragem e você, vergonhosamente, se depara como alguém que, diante de um espelho muito limpo, enfia a cara no vidro por não perceber que a pessoa do outro lado é ela própria. Não por acaso, o momento de interromper o primeiro beijo é sempre acompanhado de certa dose de constrangimento.
Para mim, é o momento de, com alguma vergonha, se desculpar: Perdão por tentar te fagocitar. É a vergonha do pretensioso que se vê fracassado mas, ao abaixar a cabeça, quase sempre damos de cara com a testa do outro, também cabisbaixo. Esta “derrota” compartilhada é, então, um fragmento de cumplicidade que será guardado para sempre. O divisor de águas não é, afinal, o beijo em si, mas a constatação do malogro (também) do outro. E agora, irreversivelmente, aquela pessoa carrega algo de você, um fragmento ímpar de experiência. Não pode haver cumplicidade maior do que compartilhar o que há de mais intrinsecamente humano: a impossibilidade.

IMG-20140419-WA0000Daniela Torres é psicóloga clínica em Ribeirão Preto e pesquisadora do Laboratório de Etnopsicologia da FFCLRP-USP.

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