Como me afoguei em um mar de rosas

ursinho

Quando nasci, um anjo iluminado, desses que vivem no topo do chafariz soprando água, me disse: vá Lindobela, vá ser vencedora na vida!
E lá fui eu, saltitante e distraída, colhendo rosas pelo caminho, garantida que estava contra toda sorte de adversidades. Só fazia aquilo que me concederia vitória e, por isso, não fazia muita coisa.
Certo dia, ocupada em uma de minhas piruetas (umas das três coisas que eu fazia com excelência), tropecei em uma pedra. Não era um diamante, era só uma pedra mesmo, o mais vulgar dos pedregulhos. E de repente, me dei conta de que aquele anjo, que também era de pedra, andou me contando mentiras: nessa estrada onde estou, não há somente ladrilhos de brilhante!
E todo o brilho que me recobria, subitamente escorreu como um balde de água na cabeça. Já não era mais a menina mais linda do mundo, conforme mamãe sempre me falou. Também nem sempre bastam forças pra lutar, conforme a Xuxa me prometeu.
Ao me dar conta do engodo, tratei logo de dar um pontapé naquele anjo mentiroso, que caiu como um boneco (coisa que ele nunca deixara de ser). Envergonhada, me sentei à beira da fonte, com aquele olhar de melancolia contemplativa, típica dos decepcionados. Depois, me levantei, tirei a poeira do traseiro e, cabisbaixa, fui dar uma volta e averiguar quantas folhas secas sempre estiveram por lá sem serem notadas por mim. Entre folhas, pisei em flores, chutei diamantes (já era tarde para aparecerem). Por quê comigo? Justo eu?
De repente ouço um “plim plim plim”, vejo uma fumacinha malcheirosa e, de um esgoto entupido, sai um rato. Feio, cinzendo, arrastando uma longa cauda escamosa e quebrada, mas até que tinha seu charme. Ele parou em frente ao buraco e, aborrecido com minhas queixas em voz alta, retrucou minha pergunta:
E por que não você?!
Virou as costas sussurrando um “folgada”, e foi se alojar em outro canto.
Pois é… Desde então, dia após dia, almejo mais difícil das vitórias: ser só mais um gauche.

IMG-20140419-WA0000Daniela Torres é psicóloga em Ribeirão Preto, pesquisadora do Laboratório de Etnopsicologia da FFCLRP-USP.

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