Nem tudo que reluz é ouro, nem toda dita regra é opressão, nem todo dito limite é proteção, nem todo título de texto é curto. Por uma análise crítica das falas analíticas.

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Quem nunca ouviu dizer que “tal pessoa não tem limite´´? Quem nunca realizou um estudo de caso onde a falta de limite foi “a bola da vez´´? Pois bem, muito bonito e bem-apessoado, mas, do que estamos falando? Precisamos de alguma reflexão para não papagaiarmos falas analíticas. Esta é uma tentativa disso.Tentativa, sempre.

Se não tenho contorno, se não tenho “ o que não é´´, o que pode existir? O computador que uso para digitar tem borda, ele não é máquina de escrever e nem bicicleta, só é computador pois tem limites – vou pensando assim em limite como borda criativa que permite algo existir.

Mas, o limite de hoje pode não ser necessariamente o limite de amanhã, assim como a regra de hoje pode não ter mais sentido amanhã, se não pudermos pensar o limite como um modelo que pode caducar, então ele será um entrave ao desenvolvimento, certos modelos precisam se esgotar no passar das vivências pessoais.

Partindo aqui da premissa que existiria um tanto “suficientemente bom´´ de limite/regra (já estou abandonando a idéia de dividir estes conceitos em dois) para cada um, para cada história, cada desejo, necessidade e experiência; penso que uma vida com regras excessivas pode ser prisão (um tipo de ditadura do medo) e “sem´´ regras um vácuo de dar dor no peito. Não reconhecer limite resulta na não definição de um mundo externo a mim, assim como limites demais anulam a identidade – sobra só o protocolo.

Gosto de pensar os limites como contornos pra podermos nos enxergar. Poder ir tateando, pensando, experienciando, questionando, pode resultar na ampliação do acesso à realidade (vista aqui como “cenário da existência´´ – pessoal, claro), e assim eles já podem ser tidos como “protetivos´´ e servos da criatividade

O limite como o inevitável, que se reconhecido pode cooperar com a existência é diametralmente oposto à regra estéril que visa acalmar um medo de não-sei-oquê. Lembremos que já nos disseram que rir é proibido, coisa do diabo. Ainda bem que até pecado atualiza.

Assim, psicanálise, cuidado você também para não aprisionar vossos pacientes em teorias descontextualizadas, assim como não deixá-los soltos, sem referenciais em pró de uma liberdade sem propósito. Corda bamba. Vamos tentando.

“Pensando em conseguir de uma só vez todos os ovos de ouro que a galinha poderia lhe dar, ele a matou e a abriu apenas para descobrir que não havia nada dentro dela.´´ (Esopo).

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Manoela Ferreira é Psicóloga Clínica em Ribeirão Preto, formada pela FFCLRP-USP e organiza o “Entretantos”.

3 comentários sobre “Nem tudo que reluz é ouro, nem toda dita regra é opressão, nem todo dito limite é proteção, nem todo título de texto é curto. Por uma análise crítica das falas analíticas.

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