À vista do gramado verde: elocubrações pela divisão do olhar

parquinho

Era Copa, dia de Brasil X México. Por mais que eu tivesse me posto a trabalhar naquele dia, em certo horário as ruas vazias e o som dos fogos de artifício indicavam um inelutável clima de feriado. Então tá, fui com uma das moças que mora comigo até o bar mais próximo e nos munimos de petiscos e cervejas, para voltarmos para casa e nos acomodarmos na tarefa patriótica de assistir ao jogo.
Primeiramente gostaria de explicar que prestar atenção a um jogo de futebol sempre foi para mim um esforço. Algo no familiar som do locutor com massa de torcida ao fundo, diante da imagem da tela verde da TV me divide, invariavelmente, entre visão e olhar.
Eu nunca prestei muita atenção em futebol, é verdade. Há tantas coisas que nossa sociedade exige de nós, mulheres, que enquanto eu me virava como podia com todas elas, o futebol passou por mim à margem dos meus interesses. Mas há algo na vista do gramado e da bola flutuante que toca meu olhar, certamente, marcas indeléveis da nossa paixão tupiniquim.
Meu pai sempre gostou de futebol, ainda me lembro de quando ele chegava em casa todo embarreado, sentava no chão da sala pra tirar a chuteira fedida e trocava de canal pra mais futebol. Mas tudo bem, porque era ele quem levava a gente no clube, enquanto ele jogava, íamos ao parquinho. Há uma imagem familiar dessa época, das mais épicas: Era fim de semana, futebol com os amigos e chuva, porque não?
Quando ele terminou a partida foi atrás da minha irmã, que tinha vindo com ele para brincar. Enquanto ele se aproximava da cantina, onde dezenas de pessoas se abrigavam da chuva, percebeu que todos aqueles pais e crianças se entretinham com alguma coisa no parquinho. Uma criança encharcada e saltitante não cabia em si de felicidade, dando voltas no gira-gira enquanto espirrava as poças pra todo lado, na maior farra, curtia o parquinho que agora era só dela. Era minha irmã, claro.
Enquanto eu me deliciava com as minhas divagações, a porta de casa se abriu. “E esse jogo gente?” “Uma merda, não tá perdendo nada. E ai, veio de boa hoje?” “Tranquilo, voltei de ônibus”. Era a outra moça da nossa República. No primeiro jogo, voltando do trabalho durante a partida ela tinha sido assaltada.
No ano passado, um ano antes de começar a Copa, a Fiat lançou um comercial com o jingle “Vem pra rua, porque a rua é a maior arquibancada do Brasil”. Todos sabemos que os brasileiros, de fato, foram ás ruas. E não foi para festejar a Copa.
O mais irônico de tudo isso foi o efeito rebote que isso causou na própria Copa. Todos os jogos do Brasil na Copa no Brasil experimentaram as ruas desertas. (Na abertura teve gente apregoando até ataque do PCC). Tudo muito diferente das Copas de minhas lembranças. 1998 foi o último ano que eu experimentei Copa com festa junina, daquelas que os vizinhos fecham a rua e fazem a festa ali mesmo, tudo muito comunitário e junino.
E isso não é um lamento, ou uma crítica, é uma constatação. Há meses atrás passou uma pequena multidão de pessoas perto da minha casa gritando “Vem pra rua! Vem pra rua!”. E eu fui, com o coração aos saltos e voraz, seria essa a nossa revolução?
Eu realmente acho que temos mais o que aprender com Fábio Hideki do que com Neymar – a menos que seja para notar a nova estratégia de outdoor de cuecas – , não tenho dúvidas disso. Porque não importa o quanto a Globo queira fabricar heróis nacionais, algum dia a inconsistência desses ídolos pode levar 7 sarrafadas bem dadas, e se desmanchar no ar.
Bom, aquele jogo começou e acabou insosso. Na minha cabeça se formou a imagem divertida de um brasileiro vestido de verde amarelo com as calças arriadas, sem ter onde roçar. Apenas ali, estatelado e frustrado.
Se bem que não era nada mal uma cervejinha em plena terça-feira, sem culpa no cartório. Que chovam gols da Alemanha, onde é mesmo o parquinho?

Ju fotoJuliana Cristina da Silva é psicóloga em Ribeirão Preto, mestranda em psicologia na área de Análise do Discurso numa interface com a Psicanálise.

Um comentário sobre “À vista do gramado verde: elocubrações pela divisão do olhar

  1. A imagem da criança no gira-gira, não sai da minha cabeça.
    Quanto a Copa, fico com a explicação “foi um apagão”, que vai durar muito tempo.

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