Medo do belo (ou: Da dificuldade de se apropriar do próprio tesouro)

Firefly

“Eu é que não me sento
No trono de um apartamento
Com a boca escancarada
Cheia de dentes
Esperando a morte chegar

Porque longe das cercas
Embandeiradas
Que separam quintais
No cume calmo
Do meu olho que vê
Assenta a sombra sonora
De um disco voador”

Ouro de Tolo – Raul Seixas

Que medo tem alguma serventia, isso todo mundo já sabe: temos medo de altura para não nos estabacarmos no final do precipício. Temos medo do escuro por não saber exatamente que tipo de ameaça pode haver ali (uma cobra? Um sapato jogado que vai te fazer cair de cara no chão? Um serial killer?). Temos medo quando, pacatamente andando pelo shopping, avistamos aquela pessoa chata que, se notar sua presença, vai te impedir de mudar de lugar pelas próximas cinco horas, falando dos assuntos mais chatos. Enfim, temos medo como antecipação do perigo.
Acontece, caro leitor, que nem sempre é assim. Aliás, no meu caso, como psicóloga, na maioria das vezes não é esse medo a respeito do qual eu escuto as pessoas falarem. Tem um outro medo assombroso que é o medo do que a gente mais quer.
Para diferenciar do medo por antecipação do perigo, Freud e Lacan o chamaram de “angústia”, embora no final das contas a sensação no sujeito seja muito parecida. A questão é a seguinte: como se não bastasse a dificuldade de “moldar” a realidade para tentar dar conta das coisas que nós desejamos, de lidar com a diferença, com a adversidade, enfim, de conseguir as coisas que queremos porque nem sempre a situação favorece, a gente ainda por cima costuma fugir dessas coisas também. E nós fugimos tanto mais, quanto mais desejamos.
É que o que a gente mais deseja tem uma cara de tesouro e outra de “estranho familiar”, um monstro daqueles difíceis de encarar (e a gente muitas vezes acaba virando a cara, aterrorizado). Terror e riqueza, êxtase e paúra, atração e fuga são todas coisas muito próximas, no final das contas. Mais próximos ainda estão o horror e a beleza: têm como condição necessária para que se possa encontrá-las uma boa dose de coragem.

IMG-20140419-WA0000Daniela Torres é psicóloga clínica em Ribeirão Preto e pesquisadora do Laboratório de Etnopsicologia da FFCLRP-USP.

Um comentário sobre “Medo do belo (ou: Da dificuldade de se apropriar do próprio tesouro)

  1. Vou aproveitar que as 4:00 tudo pode ser dito e te dizer: Eu tenho respostas para sua não-pergunta.

    Vivemos em um mundo que preza pelo culto ao feio, um momento em que a ética da estética enoja os que sempre gostaram de ter um refinamento no gosto. Aliás, gosto e refinamento são praticamente sinônimos. O que dizer de uma pessoa que não é refinada? Ela não tem bom gosto seria a afirmação.

    Em nossa época, em que insultos são os melhores tipos de elogio, que devemos nos envergonhar e nos esforçar para esconder o ter algo pelo qual batalhamos, momento em que a ostentação é um crime e que vivemos sobre o selo da [talvez falsa mas definitivamente artificial] modéstia, a verdadeira ofensa seria um elogio.

    Buscando a origem disso, podemos nos remeter desde Hegel a Oscar Wilde, especialmente em Dorian Gray, sem deixar de passar por Victor Hugo, dizendo que “The beautiful has but one type; the ugly has a thousand”, tendo como ponto de partida Aristóteles e Platão [provavelmente não os dois, mas parar para tentar lembrar isso me tiraria ainda mais do foco agora], efetivamente, trata-se de algo que vem desde os primórdios.

    Acho que a poesia por trás do pop me atrai incrivelmente, e seguindo tal caminho, com a perfeita cena da destruição do belo*, no Clube da Luta de Chuck Palahniuk, tenho a essência do meu entendimento.

    Acho que como a contra cultura do hipster, abandonamos a busca em troca do que hoje existe, a idéia da fuga do belo; Que é tão essencial que não se pode aceitar ser chamado de hipster, pois ao fazê-lo você deixaria de ser Hipster. O verdadeiro hipster afasta a identificação como tal, pois ao aceitar a identificação como um Hipster, o sujeito estaria aceitando um elogio.

    Em nossa incessante busca pelo novo nos deixamos esquecer da importância da arte e do belo artístico em favor do niilismo, me lembro de uma frase que li recentemente e que me marcou, “Sua truculência não é rebeldia, é niilismo” disse alguém que não me recordo agora.

    Assim como o hipster que morre de ódio ao passar em frente a uma ótica que vende aqueles óculos enormes e a loja que vende a sua camisa xadrez ao preço de uma pequena fortuna, acho que devemos nos afastar do comum, das novelas e da SPFW, nos direcionando em busca do nosso verdadeiro eu interior e daquilo que devemos fazer, aquilo que é nosso verdadeiro e personalíssimo objetivo existencial.

    O medo de se apropriar do próprio tesouro, talvez seja na verdade a descoberta de que talvez se esteja atrás da busca e não do objeto.

    * a Cena da destruição do belo em questão é na minha opinião a melhor cena da história do cinema.

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