O que é psicologia para mim?

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Tão pouco tempo mergulhado neste curso, eu sei, mas talvez finalmente seja hora de expor o que é a psicologia para mim. Dentro dos limitados anos de estudo e prática, começo a finalmente ter uma pequena ideia: a mente é muito mais do que supomos, ela é resultado do nosso passado, reflexo de nosso corpo, produto do ambiente ao nosso redor, enfim, é um objeto absolutamente plural. Somos, estamos, devimos, mudamos, nos reinventamos, sempre de maneira múltipla. Nossa profissão é encontrar as entradas e saídas deste labirinto sem se perder.

A profissão de psicólogo é como a de um chaveiro. Nós lidamos chaves, fazemos fechaduras, destrancamos portas, colocamos trancas. Cuidamos do cadeado no portão, da cópia da fechadura na entrada e do segredo do cofre. O psicólogo é um chaveiro de mentes, de corpos, de vidas. Trocamos fechaduras enferrujadas e emperradas também. Todas estas portas que se abrem e se fecham aliviam sofrimentos e permitem prazeres. Estamos sempre localizados na passagem; os corredores e atalhos são nossas vias de acesso, às vezes empoeirdas, mas às vezes também podem ser passagens luminosas e desimpedidas. Não usamos pé de cabra, somos sutis e habilidosos. Não estragamos uma fechadura, sabemos de sua valiosidade.

O que é psicologia para mim? Se o corpo é um aglomerado de forças que mantém relações de velocidade e repouso entre suas partes então acredito que a psicologia age abrindo e fechando comportas para permitir o fluxo destas forças. Não somos mágicos, não somos médicos, não somos autoridades. Somos simples chaveiros, nosso lugar é com mecânicos e encanadores; permitimos o fluxo da vida passar mais facilmente. A potência da vida se afirma através de nós, ela quer fluir, é nosso trabalho permitir esta passagem. O psicólogo encontra a harmonia para que possamos fluir com mais velocidade, força, segurança.

Só se liga para um chaveiro quando se está preso do lado de dentro ou de fora. Só se procura um chaveiro quando vem o desespero por uma passagem importantíssima estar barrada. Psicólogos são como chaveiros, e sabemos da responsabilidade desta profissão. Certas portas devem ser abertas com cuidado e certos segredos devem ser preservados. Deixamos passar pensamentos, vontades, sonhos, medos; nossas ferramentas permitem fluir, abrir caminhos. Somos pacientes, somos confiáveis, somos perspicazes, sutis, habilidosos; mas no fim das contas, humildemente, apenas trancamos e destrancamos portas para nossos clientes.

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Rafael Trindade estuda psicologia e filosofia, mas tem interesse em todas as áreas do saber humano. Trocou a guitarra pelo violão, o inglês pelo francês e a ciência pela arte… de resto, não sabe definir-se. Escreve no blog Razão Inadequada http://arazaoinadequada.wordpress.com/

O medo e o peso de papel.

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O medo aparece quando pensamos naquilo que pode acontecer. Quando enfim acontece, o medo sai de cena e lidamos com a coisa; bem ou mal, chorando ou não, desesperados ou com os olhos bem abertos. Aquilo que tanto tememos nos atropela ou diminui de tamanho. Podemos continuar com medo, mas já é medo de outra coisa.

Será que eu vou escapar? O medo está relacionado à falta de controle, consequência de se estar vivo. Nosso momento histórico se caracteriza por grandes investimentos em novos modos de controle da saúde, das relações e do tempo; em um momento de obsessão por controle, percebemos mais nitidamente os limites do mesmo e nos apavoramos.

Mas o importante é nos darmos conta dessa angústia, apenas pelo fato dela ser nossa. Seria bom também deixarmos um pouco de lado a “audácia” do controle (http://sintomalivre.com.br/2014/08/13/temerosos-temerarios/), mas uma coisa de cada vez! Sendo nossa essa angústia, precisamos nos apropriar para que passe a fazer sentido viver nela e, talvez depois, poder viver fora dela. Precisamos encarar, por exemplo, o fato de que o fim da vida como a conhecemos acontece. Tudo muda, mas (ainda bem!) existe um tempo antes disso. O medo traz um contorno interessante, necessário para sabermos lidar com esse tempo, que nos ajuda a organizar os aspectos da vida em certa perspectiva, fazer escolhas, dar ou não valor a algo, lembrar ou esquecer. Nos ajuda a decidir entre família e trabalho, eles ou elas, milk-shake ou coca zero.

O medo de como vamos nos sentir se algo acontecer traz um peso pras coisas. Se não pesarem, elas flutuam e nos escapam; vivemos uma ilusão de infinito, nos desconectamos de nossa condição humana, passamos a vida propondo brindes a ideais megalomaníacos, mas esquecemos de beber o vinho e morremos de sede. Por outro lado, se deixarmos que pesem demais, as incertezas nos esmagam e não conseguimos nos mexer; nada parece compensar a fadiga e só sobrevivemos.

Chega então a hora de decidir, em vários momentos: vivo para além desse medo ou dessa vez é melhor ficar? Não existe certo ou errado. É importante não perdermos nossa paz rasgando os limites do medo à qualquer custo, pois às vezes o cimento ainda está fresco. Mas também não podemos bancar os bobos quando a vida chama.

POR UM ACASO
Poderia ter acontecido.
Teve que acontecer.
Aconteceu antes. Depois. Mais perto. Mais longe.
Aconteceu, mas não com você.
Você foi salvo, pois foi o primeiro.
Você foi salvo, pois foi o último.
Porque estava sozinho. Com outros. Na direita. Na esquerda.
Porque chovia. Por causa da sombra.
Por causa do sol.
Você teve sorte, havia uma floresta.
Você teve sorte, não havia árvores.
Você teve sorte, um trilho, um gancho, uma trave, um freio,
um batente, uma curva, um milímetro, um instante.
Você teve sorte, o camelo passou pelo olho da agulha.
Em conseqüência, porque, no entanto, porém.
O que teria acontecido se uma mão, um pé,
a um passo, por um fio
de uma coincidência.
Então você está aí? A salvo, por enquanto, das tormentas em curso?
Um só buraco na rede e você escapou?
Fiquei mudo de surpresa.
Escuta,
como seu coração dispara em mim.
Wislawa Szymborska

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Helena Castello é psicóloga clínica em ribeirão preto, especialista em Psicologia Analítica e organiza o Entretantos.

Temerosos temerários

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O medo é uma sensação, uma emoção ou um sentimento. Pode procurar no google, você acha os três. E pode ser os três, que parecem estar entrelaçados numa espécie de memória meio torta. Tomo a nostalgia por referência, que às vezes se revela uma saudade do que não não foi vivido: o medo às vezes parece uma lembrança do que não aconteceu. Não precisa ter se queimado pra ter medo de fogo. Existe o medo do fogo porque alguém te prometeu que fogo machuca, o que me faz pensar que o medo em gente é um pouco diferente do medo dos outros animais. Mesmo que esteja associado à algo primitivo, o medo depende muito do que é dito, nem sempre do que é vivido (ou da programação genética).
E falando em coisas primitivas, de lá pra cá a espécie sobreviveu, não? Sucesso (mais ou menos), e talvez o medo tenha sido um aliado. Medo de lugares perigosos, do inimigo, do abandono do grupo, da escassez de alimentos. Pois é, só que hoje ter proteção e comida está um pouco menos difícil do que no passado remoto. Hoje valoriza-se a individualidade, a vontade e a singlularidade, o que teoricamente desloca as regras grupais de forma que não fiquem tanto em primeiro plano como forma de sobrevivência; passamos um bom tempo sem ter que nos preocupar tanto com o desperdício, prova disso é que consumimos muito e jogamos muita coisa fora; você provavelmente está lendo este texto protegido por paredes (mesmo que não estejamos exatamente seguros); e, no entanto, adivinhem? A maior parte de nós ainda preserva um monte de medos, e justamente de abandono (mesmo com todas as possibilidades de agrupamentos e afiliações que dispomos), de escassez (do que nunca faltou), de inimigos (perversos, que ainda não nos foram apresentados formalmente).
Fica mais fácil perceber que memória não é só registro de coisas vividas em gavetas cerebrais, mas também, é talvez e principalmente, reconhecimento daquilo que foi sugerido, contado, relatado, percebido, idealizado, enfim, socializado.Ter medo é, basicamente, acreditar nisso tudo (diferente do suposto aliado da sobrevivência).
Um exemplo mais complicado, e ideia de deus e de “capiroto” (é bom não falar, né, vai que atrai). Algumas religiões falam da necessidade de ser temente a deus, e eu pesquisei. Na religião, temer não significa exatamente ter medo, mas reconhecer como único, poderoso, que pode te salvar da miséria humana. Vejam só: o medo serve pra garantir a sobrevivência, e também para suportá-la. Estou rindo sozinho. E o medo do demônio (ops)? Seria temor também? A orientação de algumas igrejas é para que não se reconheça o demônio. Não reconhecer é não ter medo, e assim, ir extinguindo, aos poucos, a existência daquilo que se teme. Os estudos religiosos (cristãos) reconheceram que as pessoas acreditam naquilo que, no fundo, querem que existam. Neste ponto, ponto para eles. Não ter medo é não dar bola, concordo.
Luc Ferry, acredito que em um café filosófico na TV cultura, aponta o quanto o medo é infantil, no fim das contas, e um péssimo conselheiro. Péssimo conselheiro porque trava a vida, paralisa. E infantil, pois a criança acredita em tudo que ouve, ela sonha como bicho papão como se o tivesse visto um dia. Ela reconhece um bicho papão. Você reconhece um fracasso, uma demissão, uma traição, a morte dos seus pais, e nada disso aconteceu. Ou seja, você produz isso. Pra que? Fosse pra arriscar uma resposta direta: pura curiosidade… “Como será que seria se eu me queimasse?”. Quanta audácia.

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Lucas Vinco é psicólogo em Ribeirão Preto, psicanalista, mestre em Saúde Pública pela Escola de Enfermagem da USP, professor de psicologia e gestão de pessoas na REGES – RP, psicólogo na Saúde Mental e nos Recursos Humanos na prefeitura de Sertãozinho.

Precisamos falar sobre medo.

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-“Você não pode fazer xixi na cama, é coisa feia!´´- o sintoma não conseguia dar seu recado, mais episódios de xixi na cama, ou de brigas constantes na escola, ou de…
-“Alguém poderia mostrar pra essa criança que ela está com medo.´´
-“Não, não, não vamos alimentar a fraqueza dele, e sabe? Ele é um bom menino, isso resolve com medicação para a bexiga! Claro´´.

De médico e louco todo mundo tem um pouco…E de adivinho, cartomante, leitor profissional de mentes? Talvez tenhamos um pouco mais. Continuemos:
“Não vou prestar essa prova, pois não estudei o suficiente e por isso não vou passar´´
“Ele nunca vai me querer´´
“Se eu escolher determinada profissão nunca terei dinheiro´´

Faço previsões (acertações?) de presente e futuro e o “ eu tenho medo de´´ vai para debaixo do tapete. Medo de (não) mudar? Medo de (não) fracassar? Medo de inveja? Medo de desamparo? Medo de alegria?…Medo, mas olhe bem: ele não é meu não!

O medo (do tipo não vivido ou percebido), muito esperto, que bem sabe quem é seu dono, quando não reconhecido pelo próprio ou por alguém que diga com propriedade: “Olhe lá, parece que aquele medo cabeludo com 5 patas tem uma plaquinha pendurada no pescoço com seu nome´´, tende a ficar pelas redondezas, desamparado, coitado.

Medos órfãos substituídos por criaturas mais bonitinhas e confortáveis ficam muito bravos e costumam voltar com uma cara bem feia para procurar o dono- dizem por aí que eles se alimentam muito mal e exageradamente quando esquecidos, e que logo se tornam grandes e radioativos.Existem também os medos que se travestem de algo mais “aceitável´´ e aparecem em um lugar diferente da onde nasceram (talvez com uma tosa para acertar os cabelos, uma maquiagem, ou disfarce de bicho um pouco mais amável) ou, talvez, em forma de resoluções e explicações mágicas.

Mas afinal, o que é de fato mais assustador do que já saber da impossibilidade certa e imbatível do futuro ou do presente? – Precisamos falar sobre medo para não permanecermos sabichões ou adivinhos, que ainda fazem xixi na cama.

Ah! Falando nisso, o próximo Entretantos dia 24 de Setembro (https://www.facebook.com/grupoentretantos?fref=ts) é sobre Medo.

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Manoela Ferreira é Psicóloga clínica em Ribeirão Preto, formada pela FFCLRP-USP e organiza o “Entretantos”.