O medo e o peso de papel.

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O medo aparece quando pensamos naquilo que pode acontecer. Quando enfim acontece, o medo sai de cena e lidamos com a coisa; bem ou mal, chorando ou não, desesperados ou com os olhos bem abertos. Aquilo que tanto tememos nos atropela ou diminui de tamanho. Podemos continuar com medo, mas já é medo de outra coisa.

Será que eu vou escapar? O medo está relacionado à falta de controle, consequência de se estar vivo. Nosso momento histórico se caracteriza por grandes investimentos em novos modos de controle da saúde, das relações e do tempo; em um momento de obsessão por controle, percebemos mais nitidamente os limites do mesmo e nos apavoramos.

Mas o importante é nos darmos conta dessa angústia, apenas pelo fato dela ser nossa. Seria bom também deixarmos um pouco de lado a “audácia” do controle (http://sintomalivre.com.br/2014/08/13/temerosos-temerarios/), mas uma coisa de cada vez! Sendo nossa essa angústia, precisamos nos apropriar para que passe a fazer sentido viver nela e, talvez depois, poder viver fora dela. Precisamos encarar, por exemplo, o fato de que o fim da vida como a conhecemos acontece. Tudo muda, mas (ainda bem!) existe um tempo antes disso. O medo traz um contorno interessante, necessário para sabermos lidar com esse tempo, que nos ajuda a organizar os aspectos da vida em certa perspectiva, fazer escolhas, dar ou não valor a algo, lembrar ou esquecer. Nos ajuda a decidir entre família e trabalho, eles ou elas, milk-shake ou coca zero.

O medo de como vamos nos sentir se algo acontecer traz um peso pras coisas. Se não pesarem, elas flutuam e nos escapam; vivemos uma ilusão de infinito, nos desconectamos de nossa condição humana, passamos a vida propondo brindes a ideais megalomaníacos, mas esquecemos de beber o vinho e morremos de sede. Por outro lado, se deixarmos que pesem demais, as incertezas nos esmagam e não conseguimos nos mexer; nada parece compensar a fadiga e só sobrevivemos.

Chega então a hora de decidir, em vários momentos: vivo para além desse medo ou dessa vez é melhor ficar? Não existe certo ou errado. É importante não perdermos nossa paz rasgando os limites do medo à qualquer custo, pois às vezes o cimento ainda está fresco. Mas também não podemos bancar os bobos quando a vida chama.

POR UM ACASO
Poderia ter acontecido.
Teve que acontecer.
Aconteceu antes. Depois. Mais perto. Mais longe.
Aconteceu, mas não com você.
Você foi salvo, pois foi o primeiro.
Você foi salvo, pois foi o último.
Porque estava sozinho. Com outros. Na direita. Na esquerda.
Porque chovia. Por causa da sombra.
Por causa do sol.
Você teve sorte, havia uma floresta.
Você teve sorte, não havia árvores.
Você teve sorte, um trilho, um gancho, uma trave, um freio,
um batente, uma curva, um milímetro, um instante.
Você teve sorte, o camelo passou pelo olho da agulha.
Em conseqüência, porque, no entanto, porém.
O que teria acontecido se uma mão, um pé,
a um passo, por um fio
de uma coincidência.
Então você está aí? A salvo, por enquanto, das tormentas em curso?
Um só buraco na rede e você escapou?
Fiquei mudo de surpresa.
Escuta,
como seu coração dispara em mim.
Wislawa Szymborska

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Helena Castello é psicóloga clínica em ribeirão preto, especialista em Psicologia Analítica e organiza o Entretantos.

Um comentário sobre “O medo e o peso de papel.

  1. Um belo texto Helenita. Andamos com muitos medos, não? O medo é tanto individual como coletivo, cada momento histórico é refém de seus medos, como outrora foram o lobisomem, o homem das neves ou representações de uma natureza extremamente violenta.
    Hoje nossos medos são outros: perder o emprego, não ter dinheiro, um apocalipse zumbi, etc. E nos preparamos para isso, para o pior! Seu texto toca num ponto crucial, precisamos compreender para melhor viver esse tempo de incertezas crescentes.
    Tendo a interpretar esse fenômeno num viés sociológico, qual seja, vivemos um ininterrupto processo de desenraizamento, onde o horizonte e as certezas coletivas desaparecem. A sociabilidade moderna está perdendo espaço para um novo tipo de sociabilidade, agora contemporânea e que nos assusta, pois não a conhecemos inteiramente, muito menos suas consequências. É o indivíduos desgarrado da coletividade, mas ao mesmo tempo dependente dela.

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