Os mau humorados que me perdoem, mas humor é fundamental.

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O riso do humor é diferente da risada de deboche, de “sem graceza´´, ou daquela que tem cara de primeira passagem do trem para as terras “dos sem dor´´. Rimos da surpresa, da desmedida, não para destruir, mas para ultrapassar elegantemente uma ordem estabelecida.

Para rir precisamos ter ativo mais de um “nível mental´´ (ou dimensão, mais chique).Uma piada que veicule uma crítica à fome no mundo só será entendida ou apreciada de for processada em mais de uma dimensão mental, do contrário, será simples retrato de uma catástrofe social, afinal, ninguém deveria mesmo achar graça de alguém passando fome.

Crítica bem humorada “entra direto´´, não necessita do trabalho das intelectualizações para aqueles que possuem os recursos para apreende-la, ela não tenta comunicar , simplesmente fisga pela boca.

Na escola me contaram que na Idade Média era proibido rir, proibição muito bem arquitetada; um Deus único, sério e inquestionável – Posso ouvir daqui as risadas do Olimpo com seus Deuses diversos, tortos e…cheios de humores.

Nietzsche diz que o Futuro está reservado ao riso ( Gaia Ciência).Ri quem percebe mais de uma realidade atuando ao mesmo tempo e, com mais de uma opção já podem ocorrer escolhas – mudar já não é mais morrer.

Para o homem, um pobre “gauche na vida´´ (indico! http://sintomalivre.com.br/2014/06/16/como-me-afoguei-em-um-mar-de-rosas/), rir é uma urgência!

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Manoela Ferreira é Psicóloga clínica em Ribeirão Preto, formada pela FFCLRP-USP, tem muitos dias de mau humor e organiza o “Entretantos”.

Preciso me encontrar.

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A quantidade de ideais que se amontoa é imensa. Ideal político, religioso, econômico, teórico e sexual. É pouco concluir que são limitantes, furados: “ahá! Papai Noel não existe!”.
Engraçado é como a gente combate os próprios ideais: concluindo que era um delírio de grandeza ou de diminuição do outro: “cê tá viajando, por fora, tô noutra”. É um jeito de dizer: “eu superei isso e, portanto, superei você”. Há o esforço para furar uma certeza atribuída ao candidato, pastor, contador, professor, comedor… Parte dessa certeza, quem fura é que colocou lá, também demasiado pouco para concluir, mas não tão óbvio.
Fazer cair sua igreja pessoal, sua bolsa de valores particular, é doloroso, o jeito de doer menos é transformar em demanda o que é desejo, como querer sair de casa “mas meus pais não deixam”. Até que, caso você tenha azar ou se esforce bastante, eles te expulsam, e a profecia se realiza. E é esse o percurso mesmo, colocar o ideal lá para quebrar ou ultrapassar, difícil ser diferente. Neste caso, o sair de casa não é jogar contra os pais, pelo contrário, é jogar a favor, é obedecer, é permanecer até o último momento, até a ultima consequência. Às vezes sequer há algo para jogar contra. Mas, se não dá para ir contra por bem, vai por mal: inflar até explodir.
Por isso ando mais condescendente (no sentido de quem acha que está compreendendo melhor) com o Sado-Masoquismo, sério. Quem acha que a “sua” liberdade é um modelo e uma obrigação para todo mundo vai achar isso ridículo. O sadô-mazoca responde ao tédio, inflando o que não quer mais para explodir. Elevar a própria insatisfação ao estatuto de zênite. A perspectiva de insatisfação aqui está além da fórmula: “não há plenitude”. É insatisfação no sentido de forjar o tédio, inventar uma mesmice, comer até enjoar e nunca mais querer saber de comer. É a ilusão de se bastar, de se fazer por conta… Mas acaba que é só um faz-de-conta, uma historinha, um ideal. Não deixa de ser um jeito de tentar se libertar, mas que não funciona direito, porque não tem jeito de zerar o desejo. O máximo que da para fazer é adiar.
É mais fácil do que se imagina entrar em um ciclo de sofrimento, ideal, sofrimento de novo, outro ideal. Enche o balão, fura o balão, enche outro balão, estoura de novo. No começo, muita coisa ia mal, depois, como uma benção, caíram alguns ideais e muita coisa melhorou (tragédia para os neuróticos), até que passou um pensamento invasor: “tudo que eu queria agora era uma doença”. Achou estranho? Mas acontece. “Eu quero andar por aí, me foder um pouco na vida”. Ainda bem que você pediu para não ser deixado.

… “preciso andar, vou por aí a procurar, rir pra não chorar”…

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Lucas Vinco é psicólogo em Ribeirão Preto, psicanalista, mestre em Saúde Pública pela Escola de Enfermagem da USP, professor de psicologia e gestão de pessoas na REGES – RP, psicólogo na Saúde Mental e nos Recursos Humanos na prefeitura de Sertãozinho.

Em defesa da lógica binária

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Há algum tempo ando engasgada com o que julgo um grande equívoco dos psicólogos em geral, tanto dos psicanalistas quanto dos críticos da psicanálise: a maneira de interpretar o conceito de lógica binária.
Curioso pensar que meus ex-alunos do curso técnico de informática me entenderiam melhor neste momento, mesmo estudando algo aparentemente tão distante do conhecimento psi. Mas vamos ao dilema: alguns conceitos da psicanálise, mais precisamente a lacaniana, baseiam-se em uma realidade estruturada em pares de opostos, a chamada lógica binária.
Pense no funcionamento do CD (pontinhos onde o laser hora reflete, hora não) ou no aparelho televisor (o mais fácil, preto e branco, que hora as microluzes se acendem, hora se apagam). O mesmo vale para nossa vida: algumas coisas ou são, ou não são. Não tem meio termo.
Isso não quer dizer que você tenha que, necessariamente, ser ou petralha, ou tucano, militante negro do Ilê Aiyê ou membro da Ku Klux Klan, Bolsonaro ou Isabelita dos Patins. Pode ser também, se quiser. Mas não é isso que, a meu ver, deveríamos chamar de lógica binária.
Se lógica binária fosse isso, você não veria uma imagem no seu televisor ou uma música no seu CD. No caso do televisor, ou ele estaria apagado, ou aceso e a tela, ou completamente branca, ou preta. O CD ressoaria uma única nota num único volume, ou não tocaria nada. Mas o que acontece é que, de zero e um em zero e um, a televisão mostra imagens complexas e coloridas e um CD pode reproduzir a Nona de Beethoven. Para o ser humano, entendo que não deveria ser diferente.
A questão, a meu ver, é mais radical: algumas coisas na vida humana são sim ou não, e só. Por exemplo (o maior exemplo): a vida e a morte. Tem meio morto? Tem meio vivo? Um instante, uma tampinha de garrafa no lugar errado, um passo a mais para a direita podem dividir duas coisas profundamente diferentes. E não tem meio termo, nem volta no tempo, nem negociação.
Um dos assuntos mais delicados quando se fala em lógica binária é gênero (e isso vale outro(s) texto(s)). Não é porque você nasceu com “pepeca” que precisa usar rosa, brincar de Barbie, lavar louça, ser sensível, se atrair por homens e nem mesmo precisa se definir mulher ou usar um nome feminino. Beauvoir nos ajuda nesse ponto: Não se nasce mulher, torna-se. Mas o fato é que você nasceu com o que nasceu e, seja lá como for, vai ter que lidar com isso, partir deste fato para construir sua própria realidade. E o que determina isso é uma aleatoriedade: um espermatozoide microscópico, muitas vezes no lugar e na hora errada, fruto de uma rapidinha de final de balada e que, por um jogar de dados, é X ou Y. Tomara que tenha caído pra você o lado que corresponde à maneira como você vai enxergar a si mesmo e oposta àquela com a qual você vai querer se relacionar sexualmente. Senão, amigo, vai ter muita coisa pra enfrentar depois que sair da barriga da mamãe…
Aí de um lado vem o colega que fala que a psicanálise é sexista porque para ela o mundo é estruturado em uma lógica binária. Eu digo, “não é bem por aí, é que…” e antes de eu completar meu raciocínio, vem um colega psicanalista e interpreta o transgênero que não acha importante se definir como homem ou mulher (vide João Neri, Laerte, ou aquela cantora com barba que eu não lembro o nome) como alguém que não teve acesso à Lei simbólica ou que a renega (em outras palavras, que não lida bem com as “regras do jogo”). E não adianta dizer que é só “mais uma maneira” (em psicanalês, uma questão de estrutura) porque tem muita coisa por baixo dessa afirmação.
Neste impasse, fico com vontade de virar 0 em vez de 1, se é que vocês me entendem. Pensar o mundo como um grande tabuleiro de xadrez é tornar o seu cérebro bem menos complexo do que um televisor de tubo preto em preto e branco.

IMG-20140419-WA0000Daniela Torres é psicóloga em Ribeirão Preto, pesquisadora do Laboratório de Etnopsicologia da FFCLRP-USP.