Em defesa da lógica binária

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Há algum tempo ando engasgada com o que julgo um grande equívoco dos psicólogos em geral, tanto dos psicanalistas quanto dos críticos da psicanálise: a maneira de interpretar o conceito de lógica binária.
Curioso pensar que meus ex-alunos do curso técnico de informática me entenderiam melhor neste momento, mesmo estudando algo aparentemente tão distante do conhecimento psi. Mas vamos ao dilema: alguns conceitos da psicanálise, mais precisamente a lacaniana, baseiam-se em uma realidade estruturada em pares de opostos, a chamada lógica binária.
Pense no funcionamento do CD (pontinhos onde o laser hora reflete, hora não) ou no aparelho televisor (o mais fácil, preto e branco, que hora as microluzes se acendem, hora se apagam). O mesmo vale para nossa vida: algumas coisas ou são, ou não são. Não tem meio termo.
Isso não quer dizer que você tenha que, necessariamente, ser ou petralha, ou tucano, militante negro do Ilê Aiyê ou membro da Ku Klux Klan, Bolsonaro ou Isabelita dos Patins. Pode ser também, se quiser. Mas não é isso que, a meu ver, deveríamos chamar de lógica binária.
Se lógica binária fosse isso, você não veria uma imagem no seu televisor ou uma música no seu CD. No caso do televisor, ou ele estaria apagado, ou aceso e a tela, ou completamente branca, ou preta. O CD ressoaria uma única nota num único volume, ou não tocaria nada. Mas o que acontece é que, de zero e um em zero e um, a televisão mostra imagens complexas e coloridas e um CD pode reproduzir a Nona de Beethoven. Para o ser humano, entendo que não deveria ser diferente.
A questão, a meu ver, é mais radical: algumas coisas na vida humana são sim ou não, e só. Por exemplo (o maior exemplo): a vida e a morte. Tem meio morto? Tem meio vivo? Um instante, uma tampinha de garrafa no lugar errado, um passo a mais para a direita podem dividir duas coisas profundamente diferentes. E não tem meio termo, nem volta no tempo, nem negociação.
Um dos assuntos mais delicados quando se fala em lógica binária é gênero (e isso vale outro(s) texto(s)). Não é porque você nasceu com “pepeca” que precisa usar rosa, brincar de Barbie, lavar louça, ser sensível, se atrair por homens e nem mesmo precisa se definir mulher ou usar um nome feminino. Beauvoir nos ajuda nesse ponto: Não se nasce mulher, torna-se. Mas o fato é que você nasceu com o que nasceu e, seja lá como for, vai ter que lidar com isso, partir deste fato para construir sua própria realidade. E o que determina isso é uma aleatoriedade: um espermatozoide microscópico, muitas vezes no lugar e na hora errada, fruto de uma rapidinha de final de balada e que, por um jogar de dados, é X ou Y. Tomara que tenha caído pra você o lado que corresponde à maneira como você vai enxergar a si mesmo e oposta àquela com a qual você vai querer se relacionar sexualmente. Senão, amigo, vai ter muita coisa pra enfrentar depois que sair da barriga da mamãe…
Aí de um lado vem o colega que fala que a psicanálise é sexista porque para ela o mundo é estruturado em uma lógica binária. Eu digo, “não é bem por aí, é que…” e antes de eu completar meu raciocínio, vem um colega psicanalista e interpreta o transgênero que não acha importante se definir como homem ou mulher (vide João Neri, Laerte, ou aquela cantora com barba que eu não lembro o nome) como alguém que não teve acesso à Lei simbólica ou que a renega (em outras palavras, que não lida bem com as “regras do jogo”). E não adianta dizer que é só “mais uma maneira” (em psicanalês, uma questão de estrutura) porque tem muita coisa por baixo dessa afirmação.
Neste impasse, fico com vontade de virar 0 em vez de 1, se é que vocês me entendem. Pensar o mundo como um grande tabuleiro de xadrez é tornar o seu cérebro bem menos complexo do que um televisor de tubo preto em preto e branco.

IMG-20140419-WA0000Daniela Torres é psicóloga em Ribeirão Preto, pesquisadora do Laboratório de Etnopsicologia da FFCLRP-USP.

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