Sobre psicanálise e o medo da morte

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“E como não vivo
além do que vivo
não é
tempo relativo:
dura em si mesmo
eterno (e transitivo)”

Ferreira Gullar- Lição de um gato siamês

É comum surgirem em análise uma vasta diversidade de sintomas relacionados ao medo de morrer: crises de pânico e a sensação de morte iminente, depressão e a vontade de sucumbir a ela, esquizofrenia e as vozes de comando para matar, ou mesmo o bom e velho medo de morrer.
Ocorre que morrer não é coisa de gente viva. Mesmo espiritualistas crêem haver fatos relacionados ao que acontece depois que viramos adubo de que não podemos, por hora, tomar conhecimento. E vamos combinar: independente da sua religião (ou da ausência de uma), o fato é que, caso você tenha sido uma pessoa minimamente ética durante sua permanência por aqui, não há muito o que temer: ou você desaparece (e, portanto, não há como sofrer), ou continua vivendo do outro lado e pode pedir pessoalmente um autógrafo para o Freddie Mercury.
Mas acontece que, uma vez que não temos experiência de morrer, aquilo que se teme não é a morte concreta, mas aquilo que morrer representa na vida de cada um. Não por acaso, nunca morremos em um sonho: não há como simbolizar a morte, para que ela se transforme em algo sonhável. Mesmo assim sonhamos com sua iminência.
Certo dia, um paciente me narrou um sonho de quase morte. Os sonhos de quase morte são materiais muito comuns no divã e arriscaria dizer que praticamente qualquer ser humano já teve um desses. Mas, embora seja um tipo de sonho comum e, portanto, revele pouco sobre sujeitos específicos, cada um morre de um jeito no próprio sonho, e aí está a riqueza. Alguns quase morrem atacados por monstros, outros quase morrem caindo (e acordam antes de tocar o chão), outros quase são soterrados, por um teto que começa a ranger, outros começam a ter um ataque cardíaco. Mas, de qualquer forma, é também comum que haja uma certa sensação de segurança onipotente nesses sonhos, como se fossem “imorríveis”.
No caso do paciente a quem me refiro, não vem ao caso exatamente como ele estava prestes a morrer, mas sim o fato de que tinha certeza de que morreria, e não apenas um certo medo. No sonho, ele estava face a face com a morte e absolutamente certo dela. Isso muda bastante as coisas e aproxima o sonho dele da situação humana por excelência.
Sentada na cadeira atrás do divã, fui tomada por uma angústia momentânea, como se eu mesma me desse conta da finitude humana. Logo seguida, veio a mim um lampejo que mudou o curso da sessão que estava sendo conduzida.
Me dei conta de que o paciente estava prestes a passar por um rito de passagem e disse a ele que estava prestes a deixar de ser algo que havia sido durante a vida toda. E não havia, àquela altura, como recuar.
Não direi exatamente do que se tratava. Primeiro porque tenho empecilhos éticos, pois isso poderia identificá-lo. Segundo, porque não importa: se o rito era um casamento, significa deixar de ser solteiro; se era ter um filho, significa mudar de posição de filho para pai; se era uma formatura, significa deixar de ser estudante. Qualquer que fosse o rito, tratava-se de deixar de ser uma coisa e tornar-se outra completamente diferente. Mais do que isso, significava deixar de ser algo que sempre havia sido, para ser outra coisa, totalmente desconhecida e que ainda não era parte de si: era tornar-se algo até então completamente estranho. No caso do paciente, o fato tinha data e hora marcadas.
Esta relação da angústia de morte do paciente com um fato concreto de sua vida mostra como o que tememos não é da conta da morte em si e da possibilidade de não existirmos mais. É quase como nos angustiarmos com o fato de um dia não termos existido (e, sim, também fazemos isso). Chegar e partir, afinal, são mesmo só dois lados da mesma viagem…
Morrer faz parte da vida. Não me refiro apenas a ter que presenciar a morte de outros, queridos ou não, distantes ou próximos de nós. Me refiro à nossa própria morte: só vivemos se pudermos morrer. Viver é poder reinaugurar a si mesmo, de uma maneira completamente desconhecida. É quando somos capazes de deixar repousar as mãos de alguém que fomos e que não seremos mais, que pode surgir o choro doloroso do nascimento de alguém que passaremos a ser.
É a esse movimento, a meu ver, que serve uma análise.

IMG-20140419-WA0000Daniela Torres é mestre em psicologia pela FFCLRP-USP, psicóloga clínica e da prefeitura de Ribeirão Preto (NASF).