As distâncias nas relações: o que não é o que parece

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(Reflexões à partir do filme Garota Exemplar)

O enredo inicial é aparentemente simples: temos um aparente “bom encontro” (aqui vou citar o texto dos colegas do Razão Inadequada https://arazaoinadequada.wordpress.com/2013/10/31/espinosa-e-o-segundo-genero-do-conhecimento/), e o casal vai se enriquecendo, compondo a vida do outro conforme conversam, conforme se conhecem.
Pausa.
Eu disse compor: mas que seria compor no momento em que escrevo? Pensei em composição musical, quando vamos adicionando elementos outros a um primeiro de modo a tornar a melodia mais interessante e a harmonia mais complexa, aliás, se a música não vai se compondo ela para – preciso de um novo elemento seguido do outro inevitavelmente, para que a nota “atual” não seja uma eterna repetição de si mesma, o que a faria deixar de ser música?
Voltando.
A Garota Exemplar fornece alguns exemplos de “ser” : profissional, amante, filha… Mulher… Pausa: Exemplo é algo a ser seguido? Algo bom? È método de aprendizagem?
Tudo muito bonito e Exemplar. Mas, o clima do filme muda e o Exemplar Casal está afastado nas próximas cenas. Os “exemplos” agora parecem mais uma máscara da garota, que mais calcula o próprio comportamento do que vive e, distante de si mesma, inevitavelmente estaria distante do marido…? Sempre foi assim? Me enganou de antemão?
Pausa.
Mas que parceiro é este que não encontra sua amada e mesmo assim aparentemente (exemplarmente?) permanece e compactua com essa relação ? Ele também estaria distante de si? Da mulher? Apenas de forma menos tétrica?
Voltando.
Quanto de distância uma relação comporta pra que ainda seja relação (ato de relar, de encostar)? Para que ainda possa compor novas melodias? Mas, quanto de distância uma relação necessita (!!) também para sobreviver?? Afinal pra que algo encoste, preciso de separação; o que está permanentemente grudado se torna 1 e não há mais “encostações” de uma coisa na outra.
Aqui sugiro uma reflexão.
A garota Exemplar está distante de si e do marido ou está tão próxima que não mais existe? Que já se misturou? Ela julga saber o que o marido (ou um homem qualquer) quer, e age de acordo com isso: são os comportamentos “exemplares” – acredito que neste momento ela é o marido.
Por fim, o mote desta conversa me parece uma importante reflexão, inclusive entre analistas e analisandos: Qual a distância para poder haver pensamento que se vincule ao outro, mas que não seja o outro (anule sua exisência)?!
Questionemos e não, não sejamos por demais Exemplares! Para podermos ser um, mas dois quando em relação.

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Manoela Ferreira é psicóloga clínica em Ribeirão Preto, formada pela FFCLRP-USP e organizadora do “Entretantos”.

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