Concursos de Miss, “rivalidade feminina” e a fobia de mulher bonita

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– É assim que a Josefina vê a Genoveva.

Estava assistindo à chamada do concurso de Miss Brasil que passava na tevê de um lugar onde eu almoçava. Comentei com a colega de trabalho que me fazia companhia: feministas queimam sutiã, homens protestam dizendo que “tudo agora é machismo porque tá na moda”, e o concurso de Miss Brasil continua lá. Retomarei este assunto mais adiante…
Certo dia, há muito tempo, colocaram uma modelo de propaganda de cerveja para ficar parada “enfeitando” uma festa promovida pela mesma marca. Não havia ido à festa, mas amigas me mostraram a foto da mulher (sozinha, ninguém se atreveu a tirar foto do lado dela) dizendo, de maneira bem engraçada, quão incômoda era sua presença naquele lugar. Por mais maquiadas que estivessem, pareciam um palhaço diante da moça. E o assunto na mesa dos homens também foi, durante horas, a tal mulher (e não a mocinha que eles haviam beijado no mesmo dia). Ao lado, cabisbaixa, a antiga “mais bonita da turma”, relegada ao esquecimento e à obsolescência (algo como a Miss do ano anterior).
Para você que não foi empático e quer entender melhor a sensação, imagine uma mulher (a chamarei “Josefina”), feia, bonita desarrumada ou somente “não tão bonita assim”, encontra uma moça especialmente bonita, cintilante e arrumada (a chamarei “Genoveva”). Automaticamente, a cena que se passa na cabeça da Josefina é a seguinte: a Genoveva logo se transforma em um dragão cuspidor de fogo, que vai devorar o mocinho que a Josefina ficou planejando encontrar durante toda a semana. A maquiagem da Josefina, cuidadosamente planejada, rapidamente escorre e se transforma em rugas peludas, concomitantemente ao crescimento de seu nariz. Nascem bigodes também. O que a Josefina faz?

a) Diz que a Genoveva tem bigodes também (e a Josefina nem sequer os tem de verdade). Se alivia com isso.
b) Chega à conclusão, igualmente aliviante, que a Genoveva é chata, burra ou metida. “Deu pra perceber do jeito que ela piscou o olho!”
c) Faz um comentário para a amiga sobre a unha encravada da Genoveva, que evidencia o quanto ela é horrorosa. A amiga, também assustada, concorda plenamente.
d) Chora e vai pra casa tomar sorvete.
e) Beija a Genoveva, afinal ela é uma gata mesmo.

Acontece que mulher bonita causa medo a outras mulheres. Estamos constantemente sendo comparadas e nos comparando com as outras, e isto acontece de maneiras explícitas ou muito sutis.
Algumas maneiras sutis são quando um homem diz em voz alta que “fulana é a mais bonita da faculdade” ou quando uma mulher comenta o vídeo da Bunda da Paolla Oliveira (sim, em maiúscula, pois é nome próprio)dizendo que perdeu a vontade de comer pão depois de assisti-lo.
Uma maneira explícita é elencar as mulheres mais bonitas progressivamente excluindo as menos bonitas até que uma seja eleita (e todas as outras bilhões de mulheres do mundo, classificadas abaixo dela). É como uma versão profissional da listinha Top de Meninas do colegial e todos refletem um mesmo hábito de objetificar mulheres e classificá-las de acordo com o grau de desejo que são capazes de provocar. A pergunta sobre a paz mundial é só pra disfarçar: nunca vi nenhuma delas emitir nenhuma opinião polêmica ou demasiadamente inteligente, não porque não possam ser capazes, mas porque isso não seria desejável.

Obs.: Sim, há outras alternativas além das cinco listadas acima para lidar com a beleza de outra mulher, embora a última, dependendo do caso, possa ser uma alternativa viável.

IMG-20140419-WA0000Daniela Torres é mestre em psicologia pela FFCLRP-USP, psicóloga clínica e da prefeitura de Ribeirão Preto (NASF).

Sobre psicanálise e o medo da morte

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“E como não vivo
além do que vivo
não é
tempo relativo:
dura em si mesmo
eterno (e transitivo)”

Ferreira Gullar- Lição de um gato siamês

É comum surgirem em análise uma vasta diversidade de sintomas relacionados ao medo de morrer: crises de pânico e a sensação de morte iminente, depressão e a vontade de sucumbir a ela, esquizofrenia e as vozes de comando para matar, ou mesmo o bom e velho medo de morrer.
Ocorre que morrer não é coisa de gente viva. Mesmo espiritualistas crêem haver fatos relacionados ao que acontece depois que viramos adubo de que não podemos, por hora, tomar conhecimento. E vamos combinar: independente da sua religião (ou da ausência de uma), o fato é que, caso você tenha sido uma pessoa minimamente ética durante sua permanência por aqui, não há muito o que temer: ou você desaparece (e, portanto, não há como sofrer), ou continua vivendo do outro lado e pode pedir pessoalmente um autógrafo para o Freddie Mercury.
Mas acontece que, uma vez que não temos experiência de morrer, aquilo que se teme não é a morte concreta, mas aquilo que morrer representa na vida de cada um. Não por acaso, nunca morremos em um sonho: não há como simbolizar a morte, para que ela se transforme em algo sonhável. Mesmo assim sonhamos com sua iminência.
Certo dia, um paciente me narrou um sonho de quase morte. Os sonhos de quase morte são materiais muito comuns no divã e arriscaria dizer que praticamente qualquer ser humano já teve um desses. Mas, embora seja um tipo de sonho comum e, portanto, revele pouco sobre sujeitos específicos, cada um morre de um jeito no próprio sonho, e aí está a riqueza. Alguns quase morrem atacados por monstros, outros quase morrem caindo (e acordam antes de tocar o chão), outros quase são soterrados, por um teto que começa a ranger, outros começam a ter um ataque cardíaco. Mas, de qualquer forma, é também comum que haja uma certa sensação de segurança onipotente nesses sonhos, como se fossem “imorríveis”.
No caso do paciente a quem me refiro, não vem ao caso exatamente como ele estava prestes a morrer, mas sim o fato de que tinha certeza de que morreria, e não apenas um certo medo. No sonho, ele estava face a face com a morte e absolutamente certo dela. Isso muda bastante as coisas e aproxima o sonho dele da situação humana por excelência.
Sentada na cadeira atrás do divã, fui tomada por uma angústia momentânea, como se eu mesma me desse conta da finitude humana. Logo seguida, veio a mim um lampejo que mudou o curso da sessão que estava sendo conduzida.
Me dei conta de que o paciente estava prestes a passar por um rito de passagem e disse a ele que estava prestes a deixar de ser algo que havia sido durante a vida toda. E não havia, àquela altura, como recuar.
Não direi exatamente do que se tratava. Primeiro porque tenho empecilhos éticos, pois isso poderia identificá-lo. Segundo, porque não importa: se o rito era um casamento, significa deixar de ser solteiro; se era ter um filho, significa mudar de posição de filho para pai; se era uma formatura, significa deixar de ser estudante. Qualquer que fosse o rito, tratava-se de deixar de ser uma coisa e tornar-se outra completamente diferente. Mais do que isso, significava deixar de ser algo que sempre havia sido, para ser outra coisa, totalmente desconhecida e que ainda não era parte de si: era tornar-se algo até então completamente estranho. No caso do paciente, o fato tinha data e hora marcadas.
Esta relação da angústia de morte do paciente com um fato concreto de sua vida mostra como o que tememos não é da conta da morte em si e da possibilidade de não existirmos mais. É quase como nos angustiarmos com o fato de um dia não termos existido (e, sim, também fazemos isso). Chegar e partir, afinal, são mesmo só dois lados da mesma viagem…
Morrer faz parte da vida. Não me refiro apenas a ter que presenciar a morte de outros, queridos ou não, distantes ou próximos de nós. Me refiro à nossa própria morte: só vivemos se pudermos morrer. Viver é poder reinaugurar a si mesmo, de uma maneira completamente desconhecida. É quando somos capazes de deixar repousar as mãos de alguém que fomos e que não seremos mais, que pode surgir o choro doloroso do nascimento de alguém que passaremos a ser.
É a esse movimento, a meu ver, que serve uma análise.

IMG-20140419-WA0000Daniela Torres é mestre em psicologia pela FFCLRP-USP, psicóloga clínica e da prefeitura de Ribeirão Preto (NASF).

Em defesa da lógica binária

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Há algum tempo ando engasgada com o que julgo um grande equívoco dos psicólogos em geral, tanto dos psicanalistas quanto dos críticos da psicanálise: a maneira de interpretar o conceito de lógica binária.
Curioso pensar que meus ex-alunos do curso técnico de informática me entenderiam melhor neste momento, mesmo estudando algo aparentemente tão distante do conhecimento psi. Mas vamos ao dilema: alguns conceitos da psicanálise, mais precisamente a lacaniana, baseiam-se em uma realidade estruturada em pares de opostos, a chamada lógica binária.
Pense no funcionamento do CD (pontinhos onde o laser hora reflete, hora não) ou no aparelho televisor (o mais fácil, preto e branco, que hora as microluzes se acendem, hora se apagam). O mesmo vale para nossa vida: algumas coisas ou são, ou não são. Não tem meio termo.
Isso não quer dizer que você tenha que, necessariamente, ser ou petralha, ou tucano, militante negro do Ilê Aiyê ou membro da Ku Klux Klan, Bolsonaro ou Isabelita dos Patins. Pode ser também, se quiser. Mas não é isso que, a meu ver, deveríamos chamar de lógica binária.
Se lógica binária fosse isso, você não veria uma imagem no seu televisor ou uma música no seu CD. No caso do televisor, ou ele estaria apagado, ou aceso e a tela, ou completamente branca, ou preta. O CD ressoaria uma única nota num único volume, ou não tocaria nada. Mas o que acontece é que, de zero e um em zero e um, a televisão mostra imagens complexas e coloridas e um CD pode reproduzir a Nona de Beethoven. Para o ser humano, entendo que não deveria ser diferente.
A questão, a meu ver, é mais radical: algumas coisas na vida humana são sim ou não, e só. Por exemplo (o maior exemplo): a vida e a morte. Tem meio morto? Tem meio vivo? Um instante, uma tampinha de garrafa no lugar errado, um passo a mais para a direita podem dividir duas coisas profundamente diferentes. E não tem meio termo, nem volta no tempo, nem negociação.
Um dos assuntos mais delicados quando se fala em lógica binária é gênero (e isso vale outro(s) texto(s)). Não é porque você nasceu com “pepeca” que precisa usar rosa, brincar de Barbie, lavar louça, ser sensível, se atrair por homens e nem mesmo precisa se definir mulher ou usar um nome feminino. Beauvoir nos ajuda nesse ponto: Não se nasce mulher, torna-se. Mas o fato é que você nasceu com o que nasceu e, seja lá como for, vai ter que lidar com isso, partir deste fato para construir sua própria realidade. E o que determina isso é uma aleatoriedade: um espermatozoide microscópico, muitas vezes no lugar e na hora errada, fruto de uma rapidinha de final de balada e que, por um jogar de dados, é X ou Y. Tomara que tenha caído pra você o lado que corresponde à maneira como você vai enxergar a si mesmo e oposta àquela com a qual você vai querer se relacionar sexualmente. Senão, amigo, vai ter muita coisa pra enfrentar depois que sair da barriga da mamãe…
Aí de um lado vem o colega que fala que a psicanálise é sexista porque para ela o mundo é estruturado em uma lógica binária. Eu digo, “não é bem por aí, é que…” e antes de eu completar meu raciocínio, vem um colega psicanalista e interpreta o transgênero que não acha importante se definir como homem ou mulher (vide João Neri, Laerte, ou aquela cantora com barba que eu não lembro o nome) como alguém que não teve acesso à Lei simbólica ou que a renega (em outras palavras, que não lida bem com as “regras do jogo”). E não adianta dizer que é só “mais uma maneira” (em psicanalês, uma questão de estrutura) porque tem muita coisa por baixo dessa afirmação.
Neste impasse, fico com vontade de virar 0 em vez de 1, se é que vocês me entendem. Pensar o mundo como um grande tabuleiro de xadrez é tornar o seu cérebro bem menos complexo do que um televisor de tubo preto em preto e branco.

IMG-20140419-WA0000Daniela Torres é psicóloga em Ribeirão Preto, pesquisadora do Laboratório de Etnopsicologia da FFCLRP-USP.

Medo do belo (ou: Da dificuldade de se apropriar do próprio tesouro)

Firefly

“Eu é que não me sento
No trono de um apartamento
Com a boca escancarada
Cheia de dentes
Esperando a morte chegar

Porque longe das cercas
Embandeiradas
Que separam quintais
No cume calmo
Do meu olho que vê
Assenta a sombra sonora
De um disco voador”

Ouro de Tolo – Raul Seixas

Que medo tem alguma serventia, isso todo mundo já sabe: temos medo de altura para não nos estabacarmos no final do precipício. Temos medo do escuro por não saber exatamente que tipo de ameaça pode haver ali (uma cobra? Um sapato jogado que vai te fazer cair de cara no chão? Um serial killer?). Temos medo quando, pacatamente andando pelo shopping, avistamos aquela pessoa chata que, se notar sua presença, vai te impedir de mudar de lugar pelas próximas cinco horas, falando dos assuntos mais chatos. Enfim, temos medo como antecipação do perigo.
Acontece, caro leitor, que nem sempre é assim. Aliás, no meu caso, como psicóloga, na maioria das vezes não é esse medo a respeito do qual eu escuto as pessoas falarem. Tem um outro medo assombroso que é o medo do que a gente mais quer.
Para diferenciar do medo por antecipação do perigo, Freud e Lacan o chamaram de “angústia”, embora no final das contas a sensação no sujeito seja muito parecida. A questão é a seguinte: como se não bastasse a dificuldade de “moldar” a realidade para tentar dar conta das coisas que nós desejamos, de lidar com a diferença, com a adversidade, enfim, de conseguir as coisas que queremos porque nem sempre a situação favorece, a gente ainda por cima costuma fugir dessas coisas também. E nós fugimos tanto mais, quanto mais desejamos.
É que o que a gente mais deseja tem uma cara de tesouro e outra de “estranho familiar”, um monstro daqueles difíceis de encarar (e a gente muitas vezes acaba virando a cara, aterrorizado). Terror e riqueza, êxtase e paúra, atração e fuga são todas coisas muito próximas, no final das contas. Mais próximos ainda estão o horror e a beleza: têm como condição necessária para que se possa encontrá-las uma boa dose de coragem.

IMG-20140419-WA0000Daniela Torres é psicóloga clínica em Ribeirão Preto e pesquisadora do Laboratório de Etnopsicologia da FFCLRP-USP.

Hoje não tem texto

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Hoje não tem texto.

Ontem já não teve texto e, por isso, eu publicaria hoje, correndo.
Pensei em falar sobre relacionamentos amorosos. Depois pensei em falar sobre o real e o contemporâneo. Olhei para o lado e me distraí com o gole de refrigerante.

Elaborando, qualquer coisa vira texto. Um turbilhão de coisas em algum pedaço (dentro ou fora) de mim poderia se organizar em palavras e formar uma nova ideia. Uma microteoria cotidiana, daquelas que a gente vive fazendo. E eu trabalho fazendo isso: essa reorganização significante que a gente tenta ajudar o sujeito a fazer. Eu, então, poderia facilmente fazer um arranjo significante que ficasse bem apessoado.

Às vezes a psicanálise dá voltas enormes para tocar a mesma coisa que é tocada pelo cheiro de terra molhada e pela sensação que dá nos dedos quando você mexe nela. Mas não precisa (e não pode) ser sempre assim: ela tem que tocar o corpo também.

Hoje eu comprei flores para plantar na minha jardineira. E é por isso que hoje não tem texto (Mas tem psicanálise).

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Daniela Torres é psicóloga clínica em Ribeirão Preto e pesquisadora do Laboratório de Etnopsicologia da FFCLRP-USP.

Como me afoguei em um mar de rosas

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Quando nasci, um anjo iluminado, desses que vivem no topo do chafariz soprando água, me disse: vá Lindobela, vá ser vencedora na vida!
E lá fui eu, saltitante e distraída, colhendo rosas pelo caminho, garantida que estava contra toda sorte de adversidades. Só fazia aquilo que me concederia vitória e, por isso, não fazia muita coisa.
Certo dia, ocupada em uma de minhas piruetas (umas das três coisas que eu fazia com excelência), tropecei em uma pedra. Não era um diamante, era só uma pedra mesmo, o mais vulgar dos pedregulhos. E de repente, me dei conta de que aquele anjo, que também era de pedra, andou me contando mentiras: nessa estrada onde estou, não há somente ladrilhos de brilhante!
E todo o brilho que me recobria, subitamente escorreu como um balde de água na cabeça. Já não era mais a menina mais linda do mundo, conforme mamãe sempre me falou. Também nem sempre bastam forças pra lutar, conforme a Xuxa me prometeu.
Ao me dar conta do engodo, tratei logo de dar um pontapé naquele anjo mentiroso, que caiu como um boneco (coisa que ele nunca deixara de ser). Envergonhada, me sentei à beira da fonte, com aquele olhar de melancolia contemplativa, típica dos decepcionados. Depois, me levantei, tirei a poeira do traseiro e, cabisbaixa, fui dar uma volta e averiguar quantas folhas secas sempre estiveram por lá sem serem notadas por mim. Entre folhas, pisei em flores, chutei diamantes (já era tarde para aparecerem). Por quê comigo? Justo eu?
De repente ouço um “plim plim plim”, vejo uma fumacinha malcheirosa e, de um esgoto entupido, sai um rato. Feio, cinzendo, arrastando uma longa cauda escamosa e quebrada, mas até que tinha seu charme. Ele parou em frente ao buraco e, aborrecido com minhas queixas em voz alta, retrucou minha pergunta:
E por que não você?!
Virou as costas sussurrando um “folgada”, e foi se alojar em outro canto.
Pois é… Desde então, dia após dia, almejo mais difícil das vitórias: ser só mais um gauche.

IMG-20140419-WA0000Daniela Torres é psicóloga em Ribeirão Preto, pesquisadora do Laboratório de Etnopsicologia da FFCLRP-USP.

Porque beijamos na boca?

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*Título original: “Sobre ósculos e protozoários”

Certa vez vi um vídeo no qual estranhos se beijavam pela primeira vez diante de uma câmera. Tal cena me suscitou uma série de questionamentos acerca do momento em que, pela primeira vez, duas pessoas se beijam (não necessariamente estranhos, mas que nunca houvessem se beijado na boca antes). Fiquei um tempo divagando e tive algumas ideias, a respeito das quais falo neste texto.
Depois descobri que se tratava de uma propaganda e que muitos eram atores. Não importa. O que o vídeo suscitou em mim, a inquietação que produziu, não depende da veracidade daquele vídeo específico. O fato a que ele remete já é de uma verdade tão pungente que é bastante difícil descrever. Dessas coisas que lacanianos diriam que toca o real (ou pelo menos passa bem perto). Vou, então, tentar contornar.
Em primeiro lugar, o que me provocou questionamentos é o próprio ato de beijar na boca. Quando adolescente, eu costumava pensar um beijo como uma espécie de fagocitose e, em determinados momentos, me causava estranheza a quantidade de construções sociais criadas em torno desse ato de “passar a sua língua na língua de outra pessoa”. Afinal, porque isso é tão diferente de um esfregar de cotovelos? Reis são depostos, deflagram-se guerras, famílias se fazem e desfazem, ações da bolsa caem em consequência de um… Roçar de línguas?! Bem, confesso que minha estranheza não diminuiu muito dos meus quinze anos pra cá. Apenas respeito o fato de que acontecimentos drásticos podem ocorrer e não saio por aí experimentando o mundo à moda protista.
Ao mesmo tempo, hoje comparo o beijo mais com um bebê colocando coisas na boca do que com uma ameba. E me contento com a constatação de que a boca é mesmo um órgão privilegiado de contato com essa coisa que é “o mundo do lado de fora da bolha de pele onde eu vivo”. Não resta muito além de tentar contato com o vizinho da bolha ao lado e tentar, sempre sem muito sucesso, construir alguma ideia do que possa haver além desse habismo que me prende inevitavelmente à minha própria existência. Por um lapso de tempo, fui testemunha do aprisionamento do outro (no beijo). “Nossa, tem alguém ali do outro lado!”, parece ser a sensação de quem, trancado no quarto, ouve passos do outro lado da porta.
Outra coisa que me veio à cabeça é o corte causado pelo primeiro beijo em alguém. A partir do momento que você conhece alguém, digamos, pela saliva, o sujeito se divide em antes e depois de ser beijado por você. É como se ali nascesse um (a) novo (a) “fulano (a)”. Este “a” entre parênteses, inclusive, é bastante conveniente a este texto. Claro, aqui ele serve para flexibilizar o gênero a que eu me refiro, mas utilizo a licença poética para transformá-lo no tão falado “objeto a”, o “objeto causa do desejo”. É isso que nos iludimos estar perdido em algum lugar, em baixo da língua ou em outra parte qualquer do corpo desse ser desejado e, depois, beijado. Acontece que é tudo não passa de miragem e você, vergonhosamente, se depara como alguém que, diante de um espelho muito limpo, enfia a cara no vidro por não perceber que a pessoa do outro lado é ela própria. Não por acaso, o momento de interromper o primeiro beijo é sempre acompanhado de certa dose de constrangimento.
Para mim, é o momento de, com alguma vergonha, se desculpar: Perdão por tentar te fagocitar. É a vergonha do pretensioso que se vê fracassado mas, ao abaixar a cabeça, quase sempre damos de cara com a testa do outro, também cabisbaixo. Esta “derrota” compartilhada é, então, um fragmento de cumplicidade que será guardado para sempre. O divisor de águas não é, afinal, o beijo em si, mas a constatação do malogro (também) do outro. E agora, irreversivelmente, aquela pessoa carrega algo de você, um fragmento ímpar de experiência. Não pode haver cumplicidade maior do que compartilhar o que há de mais intrinsecamente humano: a impossibilidade.

IMG-20140419-WA0000Daniela Torres é psicóloga clínica em Ribeirão Preto e pesquisadora do Laboratório de Etnopsicologia da FFCLRP-USP.

A violência vem do outro

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Certa vez recebi um e-mail de uma leitora perguntando a minha opinião a respeito do crescimento dos índices de violência, a despeito do aparente aumento de dispositivos de inclusão social, como projetos sociais, vagas em escolas públicas, além de uma diminuição das taxas de desemprego.
Andei investigando e, de fato, houve diminuição da evasão escolar, das taxas de desemprego e, sem dúvida, há uma infinidade de projetos sociais espalhados por aí, embora de graus de qualidade bem variáveis. Mas afinal, por que a violência continua aumentando (o que também se pode confirmar aqui)?
Em primeiro lugar, me chama a atenção o fato de, neste contexto, o termo “violência” se referir, via de regra, a um determinado grupo de ações criminosas, a saber: homicídios, furtos e roubos (aqui contidos os assaltos nas ruas, trânsito, em casa e os latrocínios -roubo seguido de morte-). Eu poderia fazer uma pergunta retórica, do tipo “será que são estes os únicos tipos de violência que vivenciamos no contexto urbano?”. Vou, entretanto, ser mais direta e afirmativa: este tipo de crime não é o único e talvez não seja o pior (mais frequente ou mais avassalador) tipo de violência urbana. Digo mais: o próprio fato de restringirmos este termo ao um tipo específico de ação violenta é, por si só, um ato de violência.
Para explicar meu ponto de vista, questiono o conceito de crime, tal como se concebe no senso comum. O “bandido” tão falado no dia a dia não é o que comete qualquer crime, mas aquele que comete os crimes acima citados. Ficam de fora todos aqueles que cometam estelionado, extorção, desvio de verbas públicas, crimes estes que podem causar também danos diretos à vida (é só pensar, por exemplo, na falta de assistência médico-hospitalar em decorrência de um desvio de verbas na área de saúde). Ficam de fora, especialmente, os criminosos pertencentes a grupos socioeconômicos mais abastados, mesmo se tiverem envolvimento mais direto com homicídios pois não costumam “sujar as mãos”. Em todos os casos, o que acontece é que ricos matam, mas por “procuração”, ficando portanto isentos da insígnia de assassinos.
Violência é todo ato que vise calar/anular manifestações de alteridade. Podemos calar o outro matando-o, mas esta não é a única forma de o fazer. Podemos impedir que ecoe sua voz, que manifeste seu saber, sua cultura, anular sua existência social, deslegitimar seus lugares simbólicos. Podemos impedir que gays andem de mãos dadas, expulsar negros de periferia dos shoppings centers, xingar mulheres no trânsito.
Mais ainda: podemos esfregar na cara da sociedade nosso sucesso meritocrático (um bom carro, a aprovação em um vestibular público) como forma de dizer a todos os outros, que não atingiram tal meta, que são incapazes ou que não fizeram o suficiente para tal. Podemos dizer que violentos são os outros e que os nossos são “corruptos”.
Esta violência decorrente do tráfico de drogas e da desigualdade social (não da pobreza) é, portanto, só mais um tipo dentre muitos e acho ingênuo requerer que apenas esta violência cesse, sem que haja um apaziguamento digamos, mais “geral” das suas diversas formas de manifestação.
Afinal, queremos que acabe a violência do outro. Queremos ficar a salvo dela, anular esta alteridade que, sendo negada por nós, invade nosso cotidiano, nossa subjetividade, nosso condomínio. Poderia propor diversos mecanismos de lidar com esta violência, mas proporei o que penso ser o mais fundamental: que lidemos, antes, com a nossa.

IMG-20140419-WA0000Daniela Torres é psicóloga clínica em Ribeirão Preto e pesquisadora do Laboratório de Etnopsicologia da FFCLRP-USP. É contra a redução da maioridade penal e concorda com Leonardo Sakamoto quando ele diz que a redução da maioridade penal já foi colocada em prática pelo estado de São Paulo (leia aqui).

De que brincam os adultos?

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Muito se fala entre psicólogos sobre a importância do brincar para a criança. Para quem não estiver muito familiarizado, a ideia é a seguinte: brincar, no caso da criança, não é uma questão de lazer, mas uma atividade fundamental para que ela se desenvolva de maneira saudável.
Não parece, mesmo no caso das crianças, que esta maneira de conceber a brincadeira seja tão levada a sério. Sabemos bem o quanto as crianças, muitas vezes, acabam abarrotadas de tarefas: ballet, judô, natação, e tem até quem valorize uma escola por oferecer ensino de língua estrangeira para mini-pessoas que nem tenham conseguido ainda pronunciar corretamente as palavras do nosso português. Mas desde o “objeto transicional” de Winnicott (o ursinho, o paninho, ou qualquer coisa ensebada que a criança carregue consigo) e do “fort-da” de Freud (ou, para nós brasileiros, a boa e velha brincadeira do “cuti-achou”) já sabemos que criança tem que brincar!
Bem, mas não é à brincadeira infantil que estou me referindo, mas sim àquelas dos adultos (e, embora possa ser uma atividade bem divertida, não me refiro aqui a um eufemismo para o ato sexual). Afinal, como brincam os adultos?
Sim, caro leitor, adultos brincam. E, ao contrário do que se diz por aí, para nós brincar também é indispensável. Não se trata apenas de dar um tapa nas costas do seu amigo e fazer uma chacota com a camisa rosa-fúcsia com a qual ele apareceu em plena segunda-feira. Trata-se de fingir ser algo que não se é, viver situações em fantasia, imaginar sem critérios e, num piscar de olhos, voltar ao ponto de partida.
Ofender até a quinta geração do colega numa pelada de final de semana e, logo em seguida, tomar cerveja junto com ele, sem sequer se lembrar do que aconteceu minutos antes. Jogar videogame e matar velhinhas indefesas de maneira sanguinária. Chamar aquela sua amiga magra que apareceu de roupa listrada de “aedes aegypti”. Ninguém se ofendeu, ninguém matou, ninguém virou mosquito, e assim descansamos um pouco do real, na medida do possível.
Adultos não estão livres de algumas coisas que são próprias da condição humana e, nem por isso, deixam de ser (muito) incômodas. O medo da morte, seja para um paciente com câncer terminal, seja para o dono de um canário belga que não cantou esta manhã. A solidão existencial, aquele abismo que separa uma pessoa da outra (e que se faz especialmente presente quando você decide ler os comentários abaixo de um texto da internet) ou quando temos que tomar decisões a respeito das quais ninguém poderia opinar. Tudo isso, amigo, não há como se resolver no plano das “seriedades”.
Estar vivo não é moleza para ninguém! Não importa se somos crianças, adultos ou velhos, participamos todos de uma brincadeira que tem hora pra acabar. Melhor mesmo é se divertir enquanto isso.

IMG-20140419-WA0000Daniela Torres é psicóloga clínica em Ribeirão Preto e pesquisadora do Laboratório de Etnopsicologia da FFCLRP-USP.

Sobre a psicanálise enquanto religião

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É de conhecimento geral o fato de que, entre psicólogos, haver grande discordância entre as diversas abordagens da psicologia. À parte o fato de que haver diversas perspectivas a respeito de um mesmo fenômeno pode ser algo bastante fértil para abordá-lo, muitas vezes o que se presencia é uma postura marcadamente deslegitimadora de uma vertente para outra.
Farei as vezes de “advogado do diabo”, colocando no centro da discussão alguns de meus pares, psicanalistas. Sem deixar de considerar que haja represálias opressivas e, muitas vezes, infundadas por parte de adeptos de outras maneiras de exercer a profissão de psicólogo, venho aqui contestar aqueles que utilizam a psicanálise como fonte de um saber absoluto.
Utilizando as ferramentas de que disponho, os conceitos psicanalíticos, creio ser coerente considerar que muitas vezes somos porta-vozes de outro, sem nos darmos conta disso (a famigerada diferença entre o sujeito do enunciado e da enunciação). Ora, em nome de quem falamos ao defender com unhas e dentes, esta particular maneira de compreender as coisas? A que Pai cada um se remete, sem o saber (Karl Marx, Lacan, Skinner, Jesus, ou mesmo um pai concreto, defensor de uma dessas ideias)?
Utilizando a duplicidade de sentido deste “sem o saber” (como o fato de algo fugir à consciência e também pelo fato de o Pai referido ser também desprovido de uma verdade última sobre as coisas) digo que, coerentemente com minha própria abordagem, sobre a real natureza das coisas, nada se pode dizer que as encerre. Sobre o que é o ser humano, o que é o mundo, ou “o que vem primeiro, o ovo ou a galinha”, só podemos esboçar alguma compreensão, sempre rudimentar.
À parte isso, temos de lidar com o fato de que tais tentativas, além de falhas, são profundamente pessoais: não por serem restritas a uma individualidade, mas por serem marcadas por uma aposta, esta sim individual.
Ser psicólogo é (tentar) lidar com o humano. Penso numa metáfora: um mendigo bate à porta de uma casa para pedir uns trocados. Os moradores da casa começam a se interrogar sobre o que seria melhor fazer. Um deles diz que deveriam dar algum dinheiro. O outro, que o melhor é dar-lhe de comer, para evitar que usasse o dinheiro para comprar bebida. Um terceiro diz ainda que seria melhor dar a ele uma garrafa de cachaça, o que, para ele, seria a real intenção do pedido. Os três se envolvem em uma discussão acalorada sobre qual o melhor procedimento até que, depois de algum tempo, o mendigo suspira entediado e, tornado coadjuvante, decide disfarçadamente se retirar e pedir dinheiro ao vizinho.
Há diversas possibilidades de pensar o humano mas, ao final, sobre o que não se pode saber com exatidão, só cabe apostar. Nos posicionamos sempre, mesmo sem percebermos, uma vez que isto é um imperativo. Entretanto, de um jeito ou de outro, não se pode perder de vista que falamos de gente.
Anular a validade da psicanálise como forma de atuação é fato que muito critico em alguns behavioristas e cognitivistas (principalmente quanto ao que se veicula na grande mídia e entre profissionais de saúde). Creio que se trata sobretudo de uma questão ética, de não tolher o outro e assumir-se como proprietário do território (sempre estranho) da existência humana, não uma crítica pessoal ao fato de a conceberem de outra maneira (fato inevitável à existência em sociedade).
Não incorrer no mesmo erro, portanto, é a minha aposta.

IMG-20140419-WA0000Daniela Torres é psicóloga clínica em Ribeirão Preto e pesquisadora do Laboratório de Etnopsicologia da FFCLRP-USP.