Preciso me encontrar.

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A quantidade de ideais que se amontoa é imensa. Ideal político, religioso, econômico, teórico e sexual. É pouco concluir que são limitantes, furados: “ahá! Papai Noel não existe!”.
Engraçado é como a gente combate os próprios ideais: concluindo que era um delírio de grandeza ou de diminuição do outro: “cê tá viajando, por fora, tô noutra”. É um jeito de dizer: “eu superei isso e, portanto, superei você”. Há o esforço para furar uma certeza atribuída ao candidato, pastor, contador, professor, comedor… Parte dessa certeza, quem fura é que colocou lá, também demasiado pouco para concluir, mas não tão óbvio.
Fazer cair sua igreja pessoal, sua bolsa de valores particular, é doloroso, o jeito de doer menos é transformar em demanda o que é desejo, como querer sair de casa “mas meus pais não deixam”. Até que, caso você tenha azar ou se esforce bastante, eles te expulsam, e a profecia se realiza. E é esse o percurso mesmo, colocar o ideal lá para quebrar ou ultrapassar, difícil ser diferente. Neste caso, o sair de casa não é jogar contra os pais, pelo contrário, é jogar a favor, é obedecer, é permanecer até o último momento, até a ultima consequência. Às vezes sequer há algo para jogar contra. Mas, se não dá para ir contra por bem, vai por mal: inflar até explodir.
Por isso ando mais condescendente (no sentido de quem acha que está compreendendo melhor) com o Sado-Masoquismo, sério. Quem acha que a “sua” liberdade é um modelo e uma obrigação para todo mundo vai achar isso ridículo. O sadô-mazoca responde ao tédio, inflando o que não quer mais para explodir. Elevar a própria insatisfação ao estatuto de zênite. A perspectiva de insatisfação aqui está além da fórmula: “não há plenitude”. É insatisfação no sentido de forjar o tédio, inventar uma mesmice, comer até enjoar e nunca mais querer saber de comer. É a ilusão de se bastar, de se fazer por conta… Mas acaba que é só um faz-de-conta, uma historinha, um ideal. Não deixa de ser um jeito de tentar se libertar, mas que não funciona direito, porque não tem jeito de zerar o desejo. O máximo que da para fazer é adiar.
É mais fácil do que se imagina entrar em um ciclo de sofrimento, ideal, sofrimento de novo, outro ideal. Enche o balão, fura o balão, enche outro balão, estoura de novo. No começo, muita coisa ia mal, depois, como uma benção, caíram alguns ideais e muita coisa melhorou (tragédia para os neuróticos), até que passou um pensamento invasor: “tudo que eu queria agora era uma doença”. Achou estranho? Mas acontece. “Eu quero andar por aí, me foder um pouco na vida”. Ainda bem que você pediu para não ser deixado.

… “preciso andar, vou por aí a procurar, rir pra não chorar”…

fotinha lucas
Lucas Vinco é psicólogo em Ribeirão Preto, psicanalista, mestre em Saúde Pública pela Escola de Enfermagem da USP, professor de psicologia e gestão de pessoas na REGES – RP, psicólogo na Saúde Mental e nos Recursos Humanos na prefeitura de Sertãozinho.

Temerosos temerários

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O medo é uma sensação, uma emoção ou um sentimento. Pode procurar no google, você acha os três. E pode ser os três, que parecem estar entrelaçados numa espécie de memória meio torta. Tomo a nostalgia por referência, que às vezes se revela uma saudade do que não não foi vivido: o medo às vezes parece uma lembrança do que não aconteceu. Não precisa ter se queimado pra ter medo de fogo. Existe o medo do fogo porque alguém te prometeu que fogo machuca, o que me faz pensar que o medo em gente é um pouco diferente do medo dos outros animais. Mesmo que esteja associado à algo primitivo, o medo depende muito do que é dito, nem sempre do que é vivido (ou da programação genética).
E falando em coisas primitivas, de lá pra cá a espécie sobreviveu, não? Sucesso (mais ou menos), e talvez o medo tenha sido um aliado. Medo de lugares perigosos, do inimigo, do abandono do grupo, da escassez de alimentos. Pois é, só que hoje ter proteção e comida está um pouco menos difícil do que no passado remoto. Hoje valoriza-se a individualidade, a vontade e a singlularidade, o que teoricamente desloca as regras grupais de forma que não fiquem tanto em primeiro plano como forma de sobrevivência; passamos um bom tempo sem ter que nos preocupar tanto com o desperdício, prova disso é que consumimos muito e jogamos muita coisa fora; você provavelmente está lendo este texto protegido por paredes (mesmo que não estejamos exatamente seguros); e, no entanto, adivinhem? A maior parte de nós ainda preserva um monte de medos, e justamente de abandono (mesmo com todas as possibilidades de agrupamentos e afiliações que dispomos), de escassez (do que nunca faltou), de inimigos (perversos, que ainda não nos foram apresentados formalmente).
Fica mais fácil perceber que memória não é só registro de coisas vividas em gavetas cerebrais, mas também, é talvez e principalmente, reconhecimento daquilo que foi sugerido, contado, relatado, percebido, idealizado, enfim, socializado.Ter medo é, basicamente, acreditar nisso tudo (diferente do suposto aliado da sobrevivência).
Um exemplo mais complicado, e ideia de deus e de “capiroto” (é bom não falar, né, vai que atrai). Algumas religiões falam da necessidade de ser temente a deus, e eu pesquisei. Na religião, temer não significa exatamente ter medo, mas reconhecer como único, poderoso, que pode te salvar da miséria humana. Vejam só: o medo serve pra garantir a sobrevivência, e também para suportá-la. Estou rindo sozinho. E o medo do demônio (ops)? Seria temor também? A orientação de algumas igrejas é para que não se reconheça o demônio. Não reconhecer é não ter medo, e assim, ir extinguindo, aos poucos, a existência daquilo que se teme. Os estudos religiosos (cristãos) reconheceram que as pessoas acreditam naquilo que, no fundo, querem que existam. Neste ponto, ponto para eles. Não ter medo é não dar bola, concordo.
Luc Ferry, acredito que em um café filosófico na TV cultura, aponta o quanto o medo é infantil, no fim das contas, e um péssimo conselheiro. Péssimo conselheiro porque trava a vida, paralisa. E infantil, pois a criança acredita em tudo que ouve, ela sonha como bicho papão como se o tivesse visto um dia. Ela reconhece um bicho papão. Você reconhece um fracasso, uma demissão, uma traição, a morte dos seus pais, e nada disso aconteceu. Ou seja, você produz isso. Pra que? Fosse pra arriscar uma resposta direta: pura curiosidade… “Como será que seria se eu me queimasse?”. Quanta audácia.

fotinha lucas
Lucas Vinco é psicólogo em Ribeirão Preto, psicanalista, mestre em Saúde Pública pela Escola de Enfermagem da USP, professor de psicologia e gestão de pessoas na REGES – RP, psicólogo na Saúde Mental e nos Recursos Humanos na prefeitura de Sertãozinho.

Acho que eu vi uma derrota.

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Depois da derrota da seleção brasileira de futebol para a da Alemanha, li alguns textos falando sobre possíveis lições a serem aprendidas pelo “povo”. Uns achei bem bons e originais, outros só ritornelos, estribilhos de uma melodia meio moralista e falsamente politizada. Na maioria, dos dois lados, uma das principais mensagens era para que o povo parasse de acreditar em heróis, visto que este seria um sinal de movimento inerte e pensamento acrítico, marcação que sempre nos perseguiu, mas que se dobrou em relevo depois da internet.
Evidente que este tipo de postura crítica, bem como seu fomento, não é nenhuma invenção da roda, muito menos este alerta para a alienação das pessoas em torno de figuras ou instituições. Mais precisamente, figuras e instituições às quais é atribuída uma chancela de salvação.
Mas, a maioria de nós já aprendeu isso. Minha mãe me falava pra eu desconfiar da invencibilidade do 007 desde que eu tinha uns 10 anos. A república deixou de ter consistência desde que eu fiquei sabendo que o Sarney era sacana (e eu dormia no berço ainda quando ele era presidente).
Em suma, deixar de acreditar em heróis não é tão novo.
O que parece atravessar as pessoas não é realmente uma ingenuidade de cordeiro assustado que esperava o pastor vir salvar, como algumas vezes a tristeza diante de uma derrota é retratada. A desconfio um pouco que fique triste, parece que muitos ficam com raiva, porque o jogo na tv é o ensejo de um jogo “quem goza em cima de quem”. O sentimento de vergonha é semelhante àquela vez que sua calça rasgou no meio da aula, que você deixou escapar um pum na frente da nova paquera, quando sua empregada desavisada entrou no quarto e… Enfim. Não é seu heroísmo, nem sua honra, muito menos seus valores morais que vão por ralo abaixo nessas horas, é o fato de que você é muito, muito menos malandro do que você imaginava. Você não quer parecer Jesus Cristo na frente da paquera, talvez queira parecer mais Charlie Sheen.
Li pouco, mas parece que o 7 a 1 gerou umas pancadarias de alguns covardes por aí. O(a) que sai distribuindo porrada quando o Brasil perde é o mesmo que violento diante da mulher que trai, diante da outra que rouba seu macho, diante do sucesso do colega, da perda do emprego que parecia garantido, e nada disso é exatamente em nome da honra, mas do orgulho pífio de quem se acreditava, reformulando agora, ser herói sim, mas herói de sua própria fantasia, e o herói da fantasia normalmente é gozador, malvado, manipulador, poderoso, cruel, se quisesse, te quebrava inteiro, te roubava e você só ia poder ficar assistindo.
Heróis não existem. Vilões, às vezes. Falando nisso, seu zíper está aberto.

fotinha lucas
Lucas Vinco é psicólogo em Ribeirão Preto, psicanalista, mestre em Saúde Pública pela Escola de Enfermagem da USP, professor de psicologia e gestã o de pessoas na REGES – RP, psicólogo na Saúde Mental e nos Recursos Humanos na prefeitura de Sertãozinho.

Analise por quê? (parte 2 ou a queda do sentido)

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Da ultima vez estava dizendo das diferenças entre fazer ou não uma análise e das diferenças que ficam marcadas a cada sessão. Ficam marcadas, ao longo do processo analítico, tanto a sua diferença, sua singularidade, em relação aos outros e ao mundo, bem como a diferença entre os sentidos anteriores e posteriores. Também, e mais ainda, um dos interessantes efeitos promovidos por um ato analítico não é tanto a substituição de um sentido por outro, mesmo que ele pudesse ser melhor ou mais adequado, e sim a queda de alguns sentidos que são carregados por você.
O que traz sofrimento a um sujeito é justamente o excesso de sentidos que ele traz à tona diante da contingência da vida. Isso faz com que apareçam a culpa, a sensação de merecimento de uns em detrimento de outros, outros aos quais normalmente nos identificamos, injustiça, prejuízo, condenação, destino cruel, etc.
Se tudo corre bem na vida, não há grandes questionamentos, tudo passa quase despercebido. Se algo desagradável acontece, ansiogênico, amedrontador, logo vem a tentativa quase sempre equivocada de “dar sentido”. Deveríamos concluir, por costume antropológico, que dar sentido às coisas que vivemos é característica imanente do ser humano e que, portanto, eu estou falando bobagem quando cito a queda dos sentidos. O que ocorre é que digo de uma particularidade de juízos de valor que abre o leque para seu oposto, para manter a fantasia intacta.
É mais ou menos assim, se sofro, sou culpado. Suponho que alguém, cujo juízo me parece consistente o suficiente para credenciá-lo como dono da verdade, deve também saber da minha verdade, e nisso reside a minha única esperança de saber dela também. Aqui está um dos princípios da análise, procurar alguém que supostamente saiba do meu sofrimento e, portanto, possa me tirar dele. Outro ponto, sobre a fantasia, é que ela protege da aleatoriedade, porque trata-se de um enredo com final feliz, permitindo que você possa caminhar nas ilusões das certezas. O outro lado da fantasia é seu imperativo, sua crueldade, o próprio sentido de “felicidade” que se impõe como obrigação. Disso temos duas conclusões famosas na psicanálise: primeiro, a fantasia é sempre sadomasoquista, segundo, o sujeito que sofre, no fundo, está sempre feliz.
Cabe ao analista lograr e rechaçar ao mesmo tempo este lugar da fantasia, num cálculo tênue que ao mesmo tempo que sustente a transferência, mas que também possibilite a emergência verdades singulares do analisante e não as dele próprio, ou a de discurso maestral qualquer. A verdade do sujeito não necessariamente é sem juízo, mas o mesmo pode passar a ser encarado muito mais no seu valor de semblante e disposto ao entendimento do que de consistência e disposto ao amor. Em outras palavras, você passa a amar menos a regra de sentido, e aí sim pode entendê-la e usá-la, às vezes até possuí-la. Mas aí fica a pergunta: o que passa a ser amado, então, depois?

fotinha lucas
Lucas Vinco é psicólogo em Ribeirão Preto, psicanalista, mestre em Saúde Pública pela Escola de Enfermagem da USP, professor de psicologia e gestão de pessoas na REGES – RP, psicólogo na Saúde Mental e nos Recursos Humanos na prefeitura de Sertãozinho.

Análise por quê? (Parte 1 ou prelúdio)

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Por quê? Você sabe bem porquê. Você sabe, pois o inconsciente é raso, e não profundo como estamos acostumados a interpretar. Mas você não sabe exatamente do que se trata este saber. Por um motivo estranho qualquer, lá está você de volta, na ideia de começar uma analise, na ideia de sair da analise, na ideia de mudar de analista ou dentro do consultório do analista. Vai saber.
Evidente que falo de quem tem um mínimo de transferência com este mundo “psi” de psicoterapia, terapia, análise, psicanálise, essas coisas aí. E coloco assim, jogado e sem distinguir por enquanto, de propósito, porque essas “coisas aí” guardam em comum o fato de você ir falar de si, principalmente do que o faz sofrer, para alguém. Tem gente que não tem nada disso atravessado em si, vive sem e vive muito bem, obrigado. Análise não é pra todo mundo, nunca foi e nunca vai ser, senão estaríamos no campo da religião. É desse ponto que quero partir. Entrar em processo analítico não é melhor nem pior que não entrar. Mas é diferente. E esse processo não significa apenas freqüentar um consultório, claro. Isso fica meio evidente pra quem passou por essa experiência e isso pode se tornar um problema. O sujeito vê ou quer acreditar que as coisas vão melhorando um pouco na vida e começa a pregar a análise igual religião. Recebi uma paciente esses dias, extremamente incomodada com a sensação de que o fato de estar freqüentando um psicólogo transmitia a sensação de aderir a uma torcida de futebol. Salvas as devidas questões específicas deste sujeito, acredito que a questão é legítima. Pra quem trabalha com isso, deveria a até ser boa a sensação de que tem muita gente falando dos benefícios deste tipo de tratamento, mas o tiro no pé também pode ser certeiro. Lembrei agora duma discussão que presenciei no tempo da faculdade, em que o principal argumento de uma das partes era “eu faço analise”. Sem mais.
Mas vamos lá, isto tudo foi só um prelúdio. Um jeito de dizer quem não direi do que acredito que passe pela sua cabeça, por passar na minha, ao dizer sobre fazer análise. Como disse, é no mínimo diferente de não fazer. Cada sessão, se bem conduzida, marca um ponto que torna a experiência de vida irreversível depois dele. Uma sessão de análise prova que o principal responsável pelo sofrimento relatado é o esforço que você faz para voltar sempre ao mesmo ponto. Depois de um tempo, a gente vai tendo menos medo da diferença que se impõe depois de uma sessão, acaba desenvolvendo até uma simpatia pela aleatoriedade do mundo. Logo menos, continuaremos este monólogo articulado.

fotinha lucas
Lucas Vinco é psicólogo em Ribeirão Preto, psicanalista, mestre em Saúde Pública pela Escola de Enfermagem da USP, professor de psicologia e gestão de pessoas na REGES – RP, psicólogo na Saúde Mental e nos Recursos Humanos na prefeitura de Sertãozinho.

Só os outros morrem

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Uma vez, no supermercado, escutei um garoto de uns seis anos falando pra mãe que nunca iria morrer. Ele dançava no corredor, com os braços abertos e rodopiando. Parecia um pouco angustiado na verdade, dançando para afastar os maus pensamentos. Daquela vez, pensei: “ingênuo”. Hoje, concluo que ele tem razão.
Ninguém capta a vida. Ninguém entende que está vivo, só o deduz porque sabe da presença da morte, que é sempre externa e inalcançável. Vide os esforços místicos e religiosos para fazer você tocar a vida, se encontrar com seu espírito, técnicas de meditação durante dias a fio, orações intermináveis, psicotrópicos reveladores, só para ter pequenos encontros com algo não tão óbvio como a observação de que se está vivo. Uns anos de análise também podem te levar a alguns encontros semelhantes.
Como era para você antes de você nascer? Não era. O que é tem que ter nascido. Pode até ter morrido, mas era, ou foi, ou qualquer tempo do verbo ser. A língua inglesa ajuda um pouco neste assunto, porque ser e estar estão na mesma palavra, aproximando o sentido de ser do agora, mais próprio ao estar. Você pode argumentar que algo era, algo estava lá antes. Mas isto funciona como a percepção da morte dos outros, a morte que você vê, mas que para você, já dito, é externa e inalcançável.
Você não morre, nunca. Você só sabe que morre. Só os outros morrem.
Não ser é vazio, é nada. Mas impressiona o quanto este não ser nos é fundamental e estruturante. Não é porque não é que não tem efeitos.
Existe uma passagem do romance do Kundera que diz ser a vontade de pular o maior problema da vertigem causada pela altura, e não o medo como estamos habituados a concluir. Outro exemplo são as brincadeiras de medo da minha geração: a Loira do Banheiro, a brincadeira do copo, ah! A brincadeira do copo. A gente se borrava. E assistir filme de terror? Até hoje! Eu, particularmente sou obcecado por apocalipses zumbis. Tudo isso requer sua intenção e ação. O medo da altura aparece quando você vai até a janela, nas vezes que se espera a vertigem. O aparecimento da loira e o momento em que o copo se mexe sozinho requer todo um ritual. Até pra ver um filme dá um trabalho. Não quero um apocalipse, e muito menos que espíritos malignos me atormentem uma vida inteira. Também não tenho a menor pretensão de saltar do prédio. Mas nós vamos. Roçando no que a gente acha que não é, a gente vai. Primeiro “não nos deixeis cair em tentação” e só depois “livrai-nos do mal”. Primeiro dentro, depois fora. Amém!
Tem um pedaço do desejo está aquém de tudo isso que a gente faz depois de ter nascido. Vez ou outra o que o desejo quer é tentar revisitar sua origem lá atrás, mas ele só encontra isso se aproximando fim, o máximo que dá. Por isso, no osso, o garoto nunca vai morrer. Mas ele ensaia, talvez dançando.

fotinha lucas
Lucas Vinco é psicólogo em Ribeirão Preto, psicanalista, mestre em Saúde Pública pela Escola de Enfermagem da USP, professor de psicologia e gestão de pessoas na REGES – RP, psicólogo na Saúde Mental e nos Recursos Humanos na prefeitura de Sertãozinho.

Pa(i)z.

escuridao

É a resposta número um das pessoas em início de análise, quando questionadas sobre seu desejo. Você mesmo já deve ter chegado a uma conclusão parecida, estando ou não freqüentando um analista. Normalmente, está resposta vem fácil, quase em um automatismo, quando estamos no olho das aflições e abalos da vida. Então, um sujeito diz querer paz. Quase sempre acompanhada de um “só” antes do substantivo, o que faz da afirmação uma pergunta meio ingênua: “será possível que estou pedindo muito?”. Clemência! Para qual condenação?
Já perdemos a essência das coisas, as coisas em si, quando começamos a falar. E já perdemos a comunhão plena com um objeto de amor a partir de uma operação, um corte, necessário para que possamos tomar algumas rédeas na vida. No lugar desta plenitude, que uns vão falar que existiu em uma infância imemorável e outros que nunca passara de um delírio, sobra um oco e uns restos passando por ali.
Acontece que passamos uma vida fazendo toda uma engenharia de tubulação para tentar garantir que alguma matéria deslize de melhor forma possível pelas paredes destes ocos, de acordo com o contato, sempre contingencial, com as matérias do mundo. O que passa por aí produz gozo, desejo, felicidade, e também sofrimento, angústia, deriva. O que você quer? Como você quer viver? É um esforço de engenharia de fluxos e cortes.
Temos, então, que o que satisfaz é o fluxo das coisas (e não as coisas) e o que direciona e, logicamente, faz o mesmo existir, são os cortes, tudo a partir de encontros aleatórios. Em suma, somos um pedaço de carne ambulante, com um furo no meio, jogados no mundo desprogramado. Que desespero! Mais desespero ainda quando começa-se a dar conta de que as matérias do mundo não se acoplam e não estacionam no oco. Só passam. Talvez por isso nada acontece sem que criemos uma história em cima desta condição, um sonho, deuses… E pais. Claro, os pais existem de fato, um homem, uma mulher, uma gozada e, assim, você. Mas falo de pais enquanto função, em uma dimensão ficcional, que aparecem no momento em que você conta de si e dá sentidos. Estes, pais, funcionam como deuses. Nada mais interessante para contrapor o horror e o tédio de ser um pedaço de carne furado do que a existência de um deus. Por que? Entre outras funções, deuses definem destinos e ter um destino é ter a esperança de restituir a satisfação e o objeto perdidos, aquela que não se sabe se esteve ou não um dia passando por ali. De transformar os restos, que acabam sendo pistas, na obra original. Para Freud, o destino é um substituto dos pais.
Esta vontade de paz, especificamente (muito comum), é um exagero de sentido. Mas também um excesso de culpa de quem se acredita condenado, diante de sua ficção, por histórias, destinos, deuses e pais.

fotinha lucas
Lucas Vinco é psicólogo em Ribeirão Preto, psicanalista, mestre em Saúde Pública pela Escola de Enfermagem da USP, professor de psicologia e gestão de pessoas na REGES – RP, psicólogo na Saúde Mental e nos Recursos Humanos na prefeitura de Sertãozinho.

Namora, mas adora um “zap zap”.

safadeza

O título é uma expressão popular. Descobri recentemente que é quase um chavão. Eu queria alugar um antropólogo pra me ajudar. E outro para me dizer se, em alguma tribo do faroeste da Polinésia, antropólogos são alugáveis. Vocês conhecem o Whatsapp, não é? Pois eu só conhecia de nome até pouco tempo atrás quando resolvi tomar vergonha e trocar de celular. Trata-se de um aplicativo para smartphones (telefones móveis cuja a serventia menos importante é o “falar” tradicional) de troca de mensagens, bastante rápido, prático e eficaz.

Mas vamos às apresentações e hipóteses antropológicas: O “zap zap”, apelido carinhoso do aplicativo, parece estar entre o Facebook e o Tinder. O “Face” dispensa apresentações. O Tinder é uma rede social cuja finalidade original ou construída com o tempo é, deliberadamente, “conhecer alguém”. Este último parece uma versão atualizada de instrumentália do demônio Incubus/Succubus (demônios da sedução sexual que invadem homens e mulheres durante a noite a fim de sugarem suas energias vitais), a ponto de um grande amigo se perguntar, “cara, quem eu pegava antes de ter celular?”. O Facebook, bem mais popular, fica mais como um um dispositivo pós moderno de lamentações, ensinamentos budistas, hiperexposição e, principalmente, status público. Em um você se expõe no quartinho, no outro, se expõe ao povo. A síntese destes extremos, ao menos nesta mini-aventura, é o Whatsapp, que representa aqui o invejado paraíso onde o Outro goza livremente, sob a ótica da luneta do neurótico. No entanto, com um semblante de inocência e seriedade, já que estar cadastrado nele não necessariamente significa que você está mal intencionado… Mas pode. E saber disso gera uma maneira bem específica de subjetivação. Diga-me onde se cadastrou que eu te direi quem és. Medo, não é?

Mas a prova disso é que, pra muitos, que tem ou não um compromisso amoroso, ter “Face” é obrigatório (pra expor o status, que é tipo usar ou não aliança).Tinder, tem, assim, um quê de meio proibido. Já conheci casais que se separaram porque descobriram que o parceiro tinha Tinder. Por que? Em uma sociedade cristã, como a que vivemos, convencida durante 2000 anos a ter uma opinião qualquer sobre o prazer (e vejam que o problema não é só condenar o prazer, é ter uma opinião sobre ele que o torne tanto proibido quanto obrigatório), ter a intenção, por si só já é estar em pecado.

E sim, eu fiz um apanhado geral de falas sobre as redes sociais (desculpem colegas, vocês estavam sendo usados). E descobri mais coisas. Quer saber qual é um dos maiores diferenciais do whatsapp em relação aos outros? Você apaga as mensagens em poucos segundos. Isso pode não fazer diferença pra você. Mas pra quem namora, mas, adora um “zap zap”, são segundos preciosos que definem os rumos de sua vida amorosa justamente no momento em que o “mozinho” pede o celular emprestado. Descobri também que as pessoas pensam que esse bichinho transforma. Não, eu também não acredito que transforma as pessoas. Mas parece que o aplicativo é um dispositivo de desenvergonhamento e uma permissão para o cinismo. Talvez uma expressão da subjetivação à qual citei. Se a gente tem um território pra pisar, a gente se adapta a ele e à tribo nativa.

Por último. Muitos que usam intensamente a rede são paranóicos e desconfiados. E não era de se esperar algo diferente nessa fiscalização massiva. Se posta foto em um grupo, o outro vê, que passa pra outro grupo, que cria uma história. E, de repente, taca pedra na Geni! Olha lá o canalha! Você viu o chifrudo!?
O ser humano não tem muita solução. Desde que mundo é mundo, o sexo do outro interessa, porque isso alimenta o desejo. A sensualidade se constrói a partir da especulação sobre que o outro quer e do jeito que o outro goza. Papai e mamãe, ciúmes, toda a parafernália, apimentada com devires edipianos, que se modula online.

É a vila do Chaves na cidade grande, onde todo mundo desconfia que Dona Florinda tem um caso com o Girafales, e todo mundo torce pra isso. Claro, fica mais fácil quando não somos casados com a Florinda ou apaixonados pelo Girafales. Mas quase todo mundo busca, na imaginação, uma cena, invejada ou enciumada, tanto faz. Todo mundo alimenta o esquema, usuários e traficantes de informações. E desse sempre. Antes, os casais compartilhavam a senha do banco, hoje tem conta conjunta no Facebook, na tentativa de entender e dominar as economias (libidinais) do outro. Mas o incrível, veja, isso só alimenta a fantasia de que há algo a se ocultado. E há de haver! A gente mantém um grau de distanciamento nesse saber sobre o outro pra manter o desejo vivo… Quando acha que sabe tudo, procura o segredo.
Enfim. Namora, mas adora trocar mensagens escondidas. Resta saber quem adora mais, quem imagina que faz parte ou quem supõe estar de fora.

fotinha lucas
Lucas Vinco é psicólogo em Ribeirão Preto, psicanalista, mestre em Saúde Pública pela Escola de Enfermagem da USP, professor de psicologia e gestão de pessoas na REGES – RP, psicólogo na Saúde Mental e nos Recursos Humanos na prefeitura de Sertãozinho.

Texto Afobado

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O texto afobado é aquele que não deixa nada passar batido, mesmo que a melhor escolha em algum momento determinado seja justamente deixar passar. Perde o sono, normalmente refazendo na imaginação afobada o percurso, a resposta, a postura e a escrita que deveria ter feito, ou então remoendo uma situação vergonhosa. O texto afobado pode ser tão afobado que quando lembra da vergonha cita um trecho de música e cantarola pra si próprio pra disfarçar. Aliás, é um disfarçado. Tenta disfarçar a fragilidade para o leitor, respondendo à altura ou gritando mais alto. Que quem? Como eu disse, ele não deixa passar batido. Ele se bate. Quer que o leitor desapareça, porque acredita que o mesmo prefere outro texto a ele, tão falho em dizer o que quer. E ele também radicaliza, porque transforma essa suposta preferência num perigo de morte, como se o leitor que prefere outro texto ao invés dele, na realidade, desejasse sua morte. Ele precisa acreditar que é um alvo porque é melhor ser um alvo que não ser nada. Ele é inseguro e acaba achando que sua felicidade, aliás, a felicidade de outros textos em detrimento da sua, é uma questão de merecimento e, claro, injustiça. O texto afobado, fundamentalmente, acredita demais em si próprio. Se acha importante. Prova disso é que ele substitui o apego àquele que em algum momento lhe cometeu injustiça pelo apego à reação. E ele aprende a gostar disso, acaba se apegando porque dá um pouco de alívio quando ele se vinga do outro.
E ele é afobado porque ele quer responder. Aliás, ele precisa. Se ele não responde, não reage, o mundo desmorona e a esperança de felicidade por amor pleno do leitor acaba. Por isso toda reação textual é meio burra, na medida em que é automática por responder a um leitor que não existe fora de seus parágrafos. Melhor, de suas sentenças. O texto afobado, no fundo, se lamenta por suas palavras não funcionarem direito, não convencerem o íntimo dele próprio. Se ele chegou cedo no trabalho, é porque deixou a mãe falando sozinha na hora de sair, se ele deu as devidas satisfações à progenitora, acabou deixando a lição de casa por fazer. Se deu conta da lição, não deu tempo de guardar seus brinquedos e se passou a noite os guardando acordou tarde, perdeu a hora, e agora tem que dar satisfações pro seu chefe. São seus leitores cobrando e a eles vão sobrando furos e insuficiências. Insatisfações dos leitores, mais imaginadas do que reais, mas que dão o sentido de mal funcionamento de suas palavras, transformando-se isso à sentença de morte.
Mundo chato e sem sentido, ele escreve quando chega em casa, menos pela falta de sentido inerente à vida, mais por reação de excesso de sentido, que pretende preencher os furos.
Como é excesso, acaba se justificando demais e estende o assunto ao infinito. Se pudesse, sempre terminaria escrevendo “então fica assim, se não chover faz sol”. Não é que levar alguns assuntos adiante não valha a pena, mas precisa ter tanta vergonha do intervalo?
O texto afobado precisa urgentemente desavergonhar-se.

fotinha lucas
Lucas Vinco é psicólogo em Ribeirão Preto, psicanalista, mestre em Saúde Pública pela Escola de Enfermagem da USP, professor de psicologia e gestão de pessoas na REGES – RP, psicólogo na Saúde Mental e nos Recursos Humanos na prefeitura de Sertãozinho.

Seríssimas Banalidades

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E aí que me bateu uma vontade enorme de sorvete. Que fazer além de ir à sorveteria? A partir daí, verificar-se-ia que o tempo que despendi para decidir se iria ou não foi maior que o tempo de minha pretensa degustação açucarada. Decidido, fui! Mas não foi a qualquer sorveteria… Foi àquela que fica no meio do caminho entre a “de bairro”, perto de casa, (tipo que vende aquela pasta com gosto de raspadinha hidrogenada, sabe?) e Aquela, com A maiúsculo, fantástica, que vale a pena, disseram que você fica até mais saudável e bonito freqüentando o lugar. Mas essa fica perto do centro da cidade, precisa enfrentar trânsito pra chegar, atrasa minha novela, atrasa minha vida. Qual a solução para meu drama? Fui na do meio. Não é tão longe, não é tão ruim, não deixa meu sofá em desamparo por muito tempo. Estacionei, desci, me servi, e minha vontade se decidiu esvair antes da minha boca pensar em aliviar sua vontade (sim, porque a gente pensa com os órgãos, não só com o cérebro).
Isso aconteceu comigo. Não se se já aconteceu com você. Aconteceu comigo, mas também aconteceu com o homem que queria ter um filho e se queixava de nunca conseguir completar o coito, a não ser com mulheres que não conhecia, seguramente as que não seriam mães do primogênito: ainda precisava de segurança financeira, em nome do bem estar no futuro. Aconteceu com a moça que “deu o sangue” pra conseguir ser gerente da concessionária e que, no dia seguinte à sonhada conquista, não foi trabalhar, pedindo afastamento de um mês para tratar de assuntos particulares: precisava de um tempo, em nome de sua saúde. Aconteceu, também, com o rapaz que só fica com mulheres que não deseja e “broxa” com as que ama de fato, chegando ao ponto de casar-se com uma prima a qual não amava, mas que tinha para ele a insígnia da segurança de jamais poder chegar à intensidade (assustadora) de amar alguém tão familiar. Ouvi dizer ainda que aconteceu com a jovem senhora de meia idade que optou pelo culto doentio da liberdade do seu filho varão quando percebeu que para ela não havia mais tempo de resgatar sua liberdade desperdiçada ou então com a garota que decidiu não ingerir nada além de comprimidos para se livrar da “vontade nojenta de comer”.
Estes “causos” são assim, meio hipotéticos, meio do jeito que eu acho que fica bom. Mas o que me interessa, podem reparar: algo com a palavra “segurança”. Isso se repete. A gente repete isso e (às vezes) faz isso com o desejo e com o que parecem ser seus objetos: ou delega, ou estraga, ou transfere, administra, para no meio, não deixa ir à sua potência última, tenta jogar fora, desperdiça, guarda tudo pra não desperdiçar, controla… E controla mais, e adia, e evita, e segura. E justifica, sela a dúvida que faz evitar, seja em nome de causas nobres ou banais. Ou será que nas causas há sempre um “quê” de banal? Sei que foi bem fácil segurar minha vontade, não porque eu estava de dieta ou por que doce dá cáries. Foi quase uma tendência tratar meu sorvete como o objeto mais banal do universo, quando ele estava bem na minha frente. É… O desejo, ali onde ele parece ter encontrado seu fim, deve ser mesmo um perigo.

fotinha lucas
Lucas Vinco é psicólogo em Ribeirão Preto, psicanalista, mestre em Saúde Pública pela Escola de Enfermagem da USP, professor de psicologia e gestão de pessoas na REGES – RP, psicólogo na Saúde Mental e nos Recursos Humanos na prefeitura de Sertãozinho.