O Feitiço virou contra o Feiticeiro: compulsão.

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Eu não negaria que estamos em algum nível sempre tentando encontrar prazer (por mais estranho que ele possa parecer) ou encontrando meios de evitar a dor ( mesmo que seja a substituindo por algum outro tipo de dor).

Chocolate, eventos, conversas, risadas, parcerias, substâncias, estudos, música, jogo, sono… Vou chama-los de feitiços (necessários e muito bem quistos na existência) usados para não nos afogarmos na dor crua, no tédio – nas situações mais sofisticadas também são boias para o mar da ausência de sentidos.

O interessante dessa dinâmica é que as vezes este feitiço se rebela (muitas vezes silenciosamente) e ele vira contra o feiticeiro.

Seria quando certo feitiço é usado mais do que o cabível para mente/corpo (medida esta totalmente pessoal e contextual)? Eu diria que não somos ilimitados quanto à nossas capacidades mentais e físicas e, se usamos um recurso específico como se fossemos ilimitados , ele tenderá a tomar o espaço dos outros, engolirá risonhamente outros recursos, outras possibilidades…quem sabe até chegar ao ponto de não reconheceremos qualquer outra situação que não se relacione ao “feitiço salvador da pátria”? Feiticeiro de um feitiço só?

O Filme Trainspotting (1996) inicia contando ao público o quão maravilhosa é a sensação do uso da heroína: 1.000 vezes melhor que qualquer orgasmo. Bingo! Perfeito!

Curioso é que o grupo do filme não consegue mais fazer nenhuma atividade que não “usar heroína” e passam a “não entender” ou compartilhar do sentido de qualquer outra atividade, ou, passam a não compreender “sentidos” que não do prazer in natura? Estão isolados na ilha do prazer (enquanto existir heroína por perto).

De repente algo se rompe nesta ilha, o bebê da moça do grupo morre por “esquecimento” e ela entra em contato com uma dor que a faz chorar desesperadamente; os amigos se juntam ao redor dela, mas já não conhecem palavras de acolhimento. Ainda sabem conversar? Já não compreendem as ligações dolorosas que a moça expele pela boca, a dor ameaça se aproximar… Mais uma dose por favor.

Quem quer habitar a ilha de um prazer? Quem quer não sentir mais dor? O custo é a Ilha.

“Mas é preciso ter força
É preciso ter raça
É preciso ter gana sempre
Quem traz no corpo a marca
Maria, Maria
Mistura a dor e a alegria”

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Manoela Ferreira é psicóloga clínica em Ribeirão Preto, formada pela FFCLRP-USP e organizadora do “Entretantos” (que será na próxima quarta-feira, dia 29/05, às 19 horas).

As distâncias nas relações: o que não é o que parece

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(Reflexões à partir do filme Garota Exemplar)

O enredo inicial é aparentemente simples: temos um aparente “bom encontro” (aqui vou citar o texto dos colegas do Razão Inadequada https://arazaoinadequada.wordpress.com/2013/10/31/espinosa-e-o-segundo-genero-do-conhecimento/), e o casal vai se enriquecendo, compondo a vida do outro conforme conversam, conforme se conhecem.
Pausa.
Eu disse compor: mas que seria compor no momento em que escrevo? Pensei em composição musical, quando vamos adicionando elementos outros a um primeiro de modo a tornar a melodia mais interessante e a harmonia mais complexa, aliás, se a música não vai se compondo ela para – preciso de um novo elemento seguido do outro inevitavelmente, para que a nota “atual” não seja uma eterna repetição de si mesma, o que a faria deixar de ser música?
Voltando.
A Garota Exemplar fornece alguns exemplos de “ser” : profissional, amante, filha… Mulher… Pausa: Exemplo é algo a ser seguido? Algo bom? È método de aprendizagem?
Tudo muito bonito e Exemplar. Mas, o clima do filme muda e o Exemplar Casal está afastado nas próximas cenas. Os “exemplos” agora parecem mais uma máscara da garota, que mais calcula o próprio comportamento do que vive e, distante de si mesma, inevitavelmente estaria distante do marido…? Sempre foi assim? Me enganou de antemão?
Pausa.
Mas que parceiro é este que não encontra sua amada e mesmo assim aparentemente (exemplarmente?) permanece e compactua com essa relação ? Ele também estaria distante de si? Da mulher? Apenas de forma menos tétrica?
Voltando.
Quanto de distância uma relação comporta pra que ainda seja relação (ato de relar, de encostar)? Para que ainda possa compor novas melodias? Mas, quanto de distância uma relação necessita (!!) também para sobreviver?? Afinal pra que algo encoste, preciso de separação; o que está permanentemente grudado se torna 1 e não há mais “encostações” de uma coisa na outra.
Aqui sugiro uma reflexão.
A garota Exemplar está distante de si e do marido ou está tão próxima que não mais existe? Que já se misturou? Ela julga saber o que o marido (ou um homem qualquer) quer, e age de acordo com isso: são os comportamentos “exemplares” – acredito que neste momento ela é o marido.
Por fim, o mote desta conversa me parece uma importante reflexão, inclusive entre analistas e analisandos: Qual a distância para poder haver pensamento que se vincule ao outro, mas que não seja o outro (anule sua exisência)?!
Questionemos e não, não sejamos por demais Exemplares! Para podermos ser um, mas dois quando em relação.

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Manoela Ferreira é psicóloga clínica em Ribeirão Preto, formada pela FFCLRP-USP e organizadora do “Entretantos”.

Precisamos falar sobre medo.

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-“Você não pode fazer xixi na cama, é coisa feia!´´- o sintoma não conseguia dar seu recado, mais episódios de xixi na cama, ou de brigas constantes na escola, ou de…
-“Alguém poderia mostrar pra essa criança que ela está com medo.´´
-“Não, não, não vamos alimentar a fraqueza dele, e sabe? Ele é um bom menino, isso resolve com medicação para a bexiga! Claro´´.

De médico e louco todo mundo tem um pouco…E de adivinho, cartomante, leitor profissional de mentes? Talvez tenhamos um pouco mais. Continuemos:
“Não vou prestar essa prova, pois não estudei o suficiente e por isso não vou passar´´
“Ele nunca vai me querer´´
“Se eu escolher determinada profissão nunca terei dinheiro´´

Faço previsões (acertações?) de presente e futuro e o “ eu tenho medo de´´ vai para debaixo do tapete. Medo de (não) mudar? Medo de (não) fracassar? Medo de inveja? Medo de desamparo? Medo de alegria?…Medo, mas olhe bem: ele não é meu não!

O medo (do tipo não vivido ou percebido), muito esperto, que bem sabe quem é seu dono, quando não reconhecido pelo próprio ou por alguém que diga com propriedade: “Olhe lá, parece que aquele medo cabeludo com 5 patas tem uma plaquinha pendurada no pescoço com seu nome´´, tende a ficar pelas redondezas, desamparado, coitado.

Medos órfãos substituídos por criaturas mais bonitinhas e confortáveis ficam muito bravos e costumam voltar com uma cara bem feia para procurar o dono- dizem por aí que eles se alimentam muito mal e exageradamente quando esquecidos, e que logo se tornam grandes e radioativos.Existem também os medos que se travestem de algo mais “aceitável´´ e aparecem em um lugar diferente da onde nasceram (talvez com uma tosa para acertar os cabelos, uma maquiagem, ou disfarce de bicho um pouco mais amável) ou, talvez, em forma de resoluções e explicações mágicas.

Mas afinal, o que é de fato mais assustador do que já saber da impossibilidade certa e imbatível do futuro ou do presente? – Precisamos falar sobre medo para não permanecermos sabichões ou adivinhos, que ainda fazem xixi na cama.

Ah! Falando nisso, o próximo Entretantos dia 24 de Setembro (https://www.facebook.com/grupoentretantos?fref=ts) é sobre Medo.

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Manoela Ferreira é Psicóloga clínica em Ribeirão Preto, formada pela FFCLRP-USP e organiza o “Entretantos”.

Poema em caminho

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Há dias que,
Psicanálise?
Só se for com poesia.
______________________
Eco,
Medida errada?
Planilha de alguma estrada,
Viagem que nunca aconteceu,
Se alguém puder contar,
Alguma forma puder dar,
Será em forma de mim ou de você?
Ou será de alguma encruzilhada,
Via de entrada,
Que só finge ser de se perder?

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Manoela Ferreira é Psicóloga clínica em Ribeirão Preto, formada pela FFCLRP-USP e organiza o “Entretantos”.

Nem tudo que reluz é ouro, nem toda dita regra é opressão, nem todo dito limite é proteção, nem todo título de texto é curto. Por uma análise crítica das falas analíticas.

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Quem nunca ouviu dizer que “tal pessoa não tem limite´´? Quem nunca realizou um estudo de caso onde a falta de limite foi “a bola da vez´´? Pois bem, muito bonito e bem-apessoado, mas, do que estamos falando? Precisamos de alguma reflexão para não papagaiarmos falas analíticas. Esta é uma tentativa disso.Tentativa, sempre.

Se não tenho contorno, se não tenho “ o que não é´´, o que pode existir? O computador que uso para digitar tem borda, ele não é máquina de escrever e nem bicicleta, só é computador pois tem limites – vou pensando assim em limite como borda criativa que permite algo existir.

Mas, o limite de hoje pode não ser necessariamente o limite de amanhã, assim como a regra de hoje pode não ter mais sentido amanhã, se não pudermos pensar o limite como um modelo que pode caducar, então ele será um entrave ao desenvolvimento, certos modelos precisam se esgotar no passar das vivências pessoais.

Partindo aqui da premissa que existiria um tanto “suficientemente bom´´ de limite/regra (já estou abandonando a idéia de dividir estes conceitos em dois) para cada um, para cada história, cada desejo, necessidade e experiência; penso que uma vida com regras excessivas pode ser prisão (um tipo de ditadura do medo) e “sem´´ regras um vácuo de dar dor no peito. Não reconhecer limite resulta na não definição de um mundo externo a mim, assim como limites demais anulam a identidade – sobra só o protocolo.

Gosto de pensar os limites como contornos pra podermos nos enxergar. Poder ir tateando, pensando, experienciando, questionando, pode resultar na ampliação do acesso à realidade (vista aqui como “cenário da existência´´ – pessoal, claro), e assim eles já podem ser tidos como “protetivos´´ e servos da criatividade

O limite como o inevitável, que se reconhecido pode cooperar com a existência é diametralmente oposto à regra estéril que visa acalmar um medo de não-sei-oquê. Lembremos que já nos disseram que rir é proibido, coisa do diabo. Ainda bem que até pecado atualiza.

Assim, psicanálise, cuidado você também para não aprisionar vossos pacientes em teorias descontextualizadas, assim como não deixá-los soltos, sem referenciais em pró de uma liberdade sem propósito. Corda bamba. Vamos tentando.

“Pensando em conseguir de uma só vez todos os ovos de ouro que a galinha poderia lhe dar, ele a matou e a abriu apenas para descobrir que não havia nada dentro dela.´´ (Esopo).

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Manoela Ferreira é Psicóloga Clínica em Ribeirão Preto, formada pela FFCLRP-USP e organiza o “Entretantos”.

Meu conserto para corpo/mente.

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Em um concerto, um momento.
Que não importa se realmente está li.
Não por desconsiderar.
Mas por saber que lugares não existem, promessas também não.
Da pra ouvir melhor a música assim, e perceber que quase tudo é possível.
Esse quase que conota tantas impossibilidades, mas que importa?
Não saberemos quais são elas, e assim, pode-se viver mesmo os sonhos que não existem.
Ninguém chega ao fim da linha e encontra um atestado de veracidade, sonho não tem fim.
Mas tem começo…começa no primeiro acorde que se pode ouvir, e quando o som ficar baixo, não vai dá pra saber se é uma passagem ou o fim de uma sonata.
Não vale muito à pena ficar no intervalo, as pessoas comentam, criticam, elogiam, como se fossem capazes de julgar o que acontece… prefiro ver alguém repuxar o canto da boca como quem diz não dizendo: “Você ouviu né…eu também…”

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Manoela Ferreira acha que felizmente nunca terminaremos os nossos consertos. É psicóloga clínica em Ribeirão Preto, formada pela FFCLRP-USP e organiza o “Entretantos”.

Em defesa das redes sociais (advogada do diabo).

Facebook-Promoted-Posts

Já sei, já sei, já sei que muito já se fala sobre tecnologia, sobre desumanização das relações, sobre distância, relações artificiais…Já sei! Não serei mais uma voz a tratar deste tema, já estamos cheios desses “avisos”. Proponho pensar por outro caminho: Porque serve tão bem estes dispositivos virtuais de contato? Porque caímos na rede?
Acredito que o que nos é oferecido (ou mesmo imputado) ajuda a moldar nossa subjetividade sim, mas e a via inversa? Porque os aceitamos? Porque o facebook fez um “boom” mundial? Não sei, mas quero criar uma linha de reflexão. Prepare-se que o próximo parágrafo é em primeira marcha.

O Facebook e o Whatsapp, por exemplo, nos oferecem informações e trocas muito variadas ( possivelmente ricas e potentes sim!! E sou uma entusiasta do uso da internet para contatos declarada). O detalhe é que eles atuam em uma velocidade altíssima: posso mandar a mesma mensagem para 10 pessoas em questão de segundos e posso criar um evento no face em alguns minutos (se me propor a alguma reflexão sobre o que vou escrever). Mas ,e se as benditas 10 pessoas resolvem me fazer alguma pergunta? Quanto tempo demoro para responder? A resposta é a mesma para todos?… E o tempo vai correndo… Rápido! Rápido! Você usa um aplicativo rápido! O tal “evento” no face não pode ficar apenas na virtualidade, preciso realiza-lo em termos concretos também; se for uma festa de aniversário e precisar sair pra comprar bexigas, quem vai responder as mensagens que podem chegar? Peraí, deixa eu responder aqui pelo meu celular, depois decido qual será a cor das bexigas, afinal, isso é irrelevante, não é? Preciso ouvir a sugestão que a Mariazinha está me dando aqui sobre os brigadeiros, ops, espera, o Joãozinho está dizendo que devemos servir outro tipo de doce, hum, o que é mesmo que eu vim comprar aqui? E, será que tem alguém que, além de palpites, consegue vir me ajudar a enrolar esses brigadeiros? – Quer dizer que você perde tempo da sua vida enrolando brigadeiros? Ao invés de ir curtir aquele post com fotos de doces e dizeres tão profundos? Poxa, meus pêsames – ufa, fim do parágrafo.

Eu não processo informações e experiências tão rapidamente quanto o Facebook, meu HD interno não comporta tudo que ele me oferece, e, se tento funcionar tão rapidamente quanto ele meu cérebro pifa, e não há mais espaço para quase nada que não seja um post de gatinhos bonitinhos (confesso que adoro este tipo!). Rápido também pode significar “sem contraste”, já reparou o que ocorre se girar um catavento com todas as cores (Disco de Newton)? Branco ou cinza é o resultado. Já reparou o que ocorre se você trocar 1.000 mensagens em apenas um dia? – Você tem o aplicativo para tal, não significa que deva usá-lo assim ou assado.

E no fundo, da uma vontade de ser mais rápido, mais potente, mais “visto”- essa é a propaganda, mas, do que é que eu gosto mesmo nessa vida? De ser rápido? Pra quê? – Se o Facebook for um bom camarada ele dirá: “Não seja eu, eu sou imbecil, apenas me use para o que desejar vir a ser”.

Posso conhecer alguém através da internet, mas se ele estiver só atrás da tela nunca conseguirei introjetar sua existência em mim, e, assim, nunca sobreviverei a ausência deste ser que por não existir dentro de mim, não poderá ir e voltar sem que eu me sinta desesperada pelo seu “sumiço” – Ah, mas peraí, tenho internet para averiguar a existência da pessoa querida 24 horas por dia, ufa! Achei que ia ficar louco! – O risco é o mundo virtual substituir o mundo interno, esse mundo onde guardo pessoas queridas, onde elas existem mesmo que não as veja, onde só estão ausentes ( e não “não existentes”).

Assim como os dispositivos virtuais, a psicanálise também “não é” ninguém, nenhum psicanalista pode alegar carregar (ou ser) a “verdadeira psicanálise” (aqui eu sugiro o texto da Daniela Torres http://sintomalivre.com.br/2014/05/05/sobre-a-psicanalise-enquanto-religiao/). Totens psicanalíticos inquestionáveis correm o risco de se tornar telas de computador do tipo infértil, de fazer contatos teoricamente potentes e rápidos, mas que não “entram” ( não são “introjetados”). E aí, o que realmente sobra? Restos, restos e mais restos onde poderia existir apenas ausências e presenças.
Ah ! Que saudade das pessoas Manuel Bandeira! Aí vai uma poesia:

Porquinho-da-Índia

Quando eu tinha seis anos
Ganhei um porquinho-da-índia.
Que dor de coração me dava
Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!
Levava ele prá sala
Pra os lugares mais bonitos mais limpinhos
Ele não gostava:
Queria era estar debaixo do fogão.
Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas…
— O meu porquinho-da-índia foi minha primeira namorada.
(Manuel Bandeira, Melhores poemas de Manuel Bandeira)

Obs: Para mais reflexões sobre o “mundo virtual” – http://sintomalivre.com.br/2014/05/08/namora-mas-adora-um-zap-zap/

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Manoela Ferreira gosta de internet, é psicóloga clínica em Ribeirão Preto, formada pela FFCLRP-USP e organiza o “Entretantos”.

Sobre o (meu) escrever.

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Sempre desconfiei de textos com cheiro de teoria despersonalizada, cheios de requintes, referências e gramática rebuscada; por trás deles sempre há um sujeito, por mais que ele tente não dar as caras. A pessoalidade é algo quase que inevitável, digo quase, pois se há muitas tentativas de se esquivar dela o sujeito fica embaixo de destroços, pessoais sim, mas destroços.

Por esta saudade das pessoas e crença (pessoal ou não) no poder de transformação de experiências vividas, proponho um compartilhar de textos que tenham cara de ( ou uma mera tentativa de ser) palavras/pensamento, cruas, direto da fonte, sem processamento ( corantes e conservantes). Proponho a exposição, não a vulgaridade que visa chocar em nome de um não sei o que, mas a exposição da fragilidade que confia que pode ser livre. Livre no nascimento e assim, livre pra percorrer mentes de outros.

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Manoela Ferreira é psicóloga clínica em Ribeirão Preto, formada pela FFCLRP-USP e organizadora do “Entretantos”.

Sobre o filme Ninfomaníaca 2

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*Atenção: este texto contém spoilers.

A voracidade não encontra parada, nada é suficiente, porque nada preenche, nem um pedacinho.
(cenas de sexo, cenas de sexo).
A personagem fica violentada de todas as formas possíveis, e interessantemente durante todo o filme conversa com um senhor, teoricamente um religioso casto, auto intitulado assexuado, que alega que nem se excita com as histórias que ela vai contando.
(Imagens religiosas, olhares estranhos, apreensão).
Seria ele alguém que não atualizaria a dinâmica da personagem? Alguém que não se vincularia sexualmente a ela? …Por fim, ele tenta uma aproximação sexual e….um tiro; a realidade não pode mais ser suportada.
O que (quem) pode impedir que ela viva de novo, e de novo, e de novo a mesma dinâmica? O que nos separa da eterna reatualização do traumático? Ela haveria caído em uma cilada inconsciente quando se aproxima deste “assexuado”? Ele não foi capaz de protegê-la dos próprios desejos? O que pode alguém que não assume (percebe) a própria sexualidade? Em um algum lugar ela irá aparecer; alguém, a sexualidade negada irá assombrar.
Enfim, não sabemos, e o filme termina com o trauma, no escuro, com nossa impotência e humanidade gritando a berros estridentes – A morte não transforma o trauma, apenas confirma, simbolicamente, a fragilidade da vida, quando uma experiência (de transformação) essencial não pode ser vivida. E o filme diz: aguente ter-me visto.

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Manoela Ferreira é psicóloga clínica em Ribeirão Preto, formada pela FFCLRP-USP e organizadora do “Entretantos”.